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Calote no Brasil pressiona Caixa Econômica apesar da alta de 13,9% no crédito imobiliário

Com provisão para perdas crescendo 211,5% e inadimplência em 3,71%, banco relata queda no lucro e reflete endividamento das famílias no mercado imobiliário.

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No primeiro trimestre de 2026, a Caixa Econômica Federal apresentou um cenário desafiador e paradoxal no mercado imobiliário do Brasil. Enquanto a carteira de crédito habitacional da instituição avançou expressivos 13,9% em 12 meses, alcançando a marca histórica de R$ 966,2 bilhões, o banco viu seu lucro líquido recorrente despencar 34,4%, totalizando R$ 3,5 bilhões entre janeiro e março.

O principal motivo por trás desse balanço? A escalada contínua do calote e do risco de crédito. A inadimplência acima de 90 dias subiu de forma relevante para 3,71%, o que representa um salto de 1,22 ponto percentual em relação ao primeiro trimestre de 2025.

Impacto das novas regras e salto nas provisões

Para conter o avanço do risco e absorver potenciais perdas com empréstimos não pagos no Brasil, a instituição financeira estatal precisou reforçar significativamente o seu caixa. A provisão para créditos de liquidação duvidosa disparou impressionantes 211,5% em apenas um ano, atingindo a cifra de R$ 6,51 bilhões no 1º trimestre de 2026.

Segundo a direção da Caixa, essa forte queda no lucro está diretamente atrelada ao aumento vertiginoso das provisões para perdas. O movimento reflete uma adequação às novas exigências regulatórias do Banco Central do Brasil para a cobertura de risco de inadimplência. A mudança tem lastro na Resolução CMN nº 4.966, de 25 de novembro de 2021, que passou a ditar critérios contábeis muito mais rígidos sobre perdas esperadas em instrumentos financeiros.

Além do segmento de moradia, outros setores também pressionam os indicadores. Henriete Sartori, vice-presidente de Riscos da Caixa, destacou que o setor agropecuário — que representa atualmente 5% da carteira total do banco — ainda gera grande cautela e deve trazer impactos diretos nas provisões da instituição ao longo do ano de 2026.

Crescimento acelerado em crédito para imóveis

Apesar da pressão clara da inadimplência e das exigências de capital, a liderança da Caixa no setor de imóveis segue incontestável. O banco mantém robustos 68,0% de participação de mercado no segmento habitacional. Apenas nos três primeiros meses de 2026, as contratações totais de crédito somaram R$ 179,4 bilhões, configurando uma alta anual de 17,9%. Desse total, R$ 64,2 bilhões foram destinados exclusivamente ao crédito imobiliário, um avanço ainda mais expressivo de 30,6%.

O balanço revela que a estrutura de capital segue sólida, com o Índice de Basileia figurando em 15,1% (ante 15,3% no 1T25). A instituição informou ainda que 91,0% de sua gigantesca carteira de R$ 1,41 trilhão (alta geral de 11,3%) estava concentrada em operações de menor risco ao final do mês de março de 2026.

Como força motriz desse sistema, a estrutura de funding somou R$ 2,034 trilhões, uma alta anual de 13,7%. O grande motor continua sendo a caderneta de poupança, que acumulou um saldo de R$ 392,4 bilhões e manteve 39,2% da fatia de mercado nacional.

Esse fôlego nos depósitos permitiu que o banco retomasse uma importante frente de negócios. Em 3 de março de 2026, a Caixa reabriu o financiamento para imóveis residenciais avaliados acima de R$ 2,25 milhões utilizando recursos da poupança — modalidade enquadrada no Sistema Financeiro Imobiliário que estava suspensa para contratações individuais desde outubro de 2024. Inês Magalhães, vice-presidenta de Habitação, vinculou a retomada a um pacote habitacional lançado no fim de 2025, que ampliou a liquidez.

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O endividamento das famílias e o risco no Brasil

A situação no balanço da Caixa Econômica Federal funciona como um reflexo de um quadro macroeconômico bastante apertado para a população. Dados consolidados pelo Banco Central mostram que, em todo o Sistema Financeiro Nacional (SFN), o saldo de operações de crédito alcançou R$ 7,2 trilhões em março de 2026, registrando altas de 0,9% no mês e de 9,7% no ano. O crédito direcionado, muito usado no setor imobiliário, somou R$ 3,1 trilhões, crescendo 12,3% anualmente.

No entanto, a inadimplência total do SFN acompanhou a tendência de alta da Caixa e bateu 4,3%, avançando 1,0 ponto percentual em 12 meses. O foco de alerta está nas famílias brasileiras: a taxa de calote entre pessoas físicas chegou a 5,3% em março, puxada por uma alta anual de 1,4 ponto percentual.

O peso desse crédito na renda é estatisticamente evidente. O endividamento geral das famílias atingiu a marca de 49,9% já em fevereiro de 2026. Mais preocupante ainda, o comprometimento direto da renda mensal saltou para 29,7%, uma elevação de 1,9 ponto percentual em um ano. A justificativa encontra-se também nos custos operacionais: a taxa média de juros no SFN subiu para 33,1% ao ano e, no segmento de crédito livre para pessoas físicas, o índice chegou a 61,5% anuais (alta de 4,7 pontos percentuais).

Renegociação e o risco de retomada de imóveis

Para tentar mitigar os impactos no próprio balanço e no bolso das famílias, a renegociação de dívidas tem sido a principal ferramenta emergencial. Até o dia 19 de maio de 2026, a Caixa informou ter realizado mais de R$ 1,36 bilhão em repactuações por meio do programa Novo Desenrola Brasil, contemplando mais de 36,4 mil clientes em apuros.

No braço chamado Desenrola Famílias, o foco recaiu sobre contratos celebrados até o fim de janeiro de 2026, abarcando dívidas com atraso entre 91 e 720 dias, oferecendo prazos de 12 a 48 meses e taxas de juros de 1,99% ao mês. Já no Desenrola FIES, com adesão aberta até o dia 31 de dezembro de 2026, o banco acenou com descontos de até 99% para contratos estudantis que estavam em amortização em maio e foram formalizados até 2017.

Apesar dos esforços, quando a renegociação habitacional falha, a legislação permite ações rápidas de retomada. Na alienação fiduciária, a Lei nº 9.514/1997 estabelece que o imóvel pode ser levado a leilão público logo após a consolidação da propriedade em nome da instituição credora, determinando a reintegração de posse e desocupação em prazos de apenas 60 dias. Para reverter o quadro após a consolidação da retomada pelo credor, a Caixa explica que o devedor precisa invocar seu direito de preferência, mas é obrigado a recomprar a casa pelo valor integral da dívida em aberto.

Historicamente, a concretização desse risco de perda é alta. Em 2024, o banco foi forçado a reintegrar 49.935 imóveis (frente a 39.591 unidades retomadas em 2023). O ritmo apenas demonstrou relativa desaceleração em dados apurados no 1º trimestre de 2025, quando a Caixa reintegrou 8.762 propriedades avaliadas em R$ 1,15 bilhão, uma queda anual frente aos 13.166 imóveis do 1T24. O cenário mais recente, contudo, com inadimplência geral em franca ascensão, mantém o alerta vermelho sobre os contratos do mercado imobiliário brasileiro.

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