Hectare agrícola em Santa Catarina chega a R$ 169 mil e expõe abismo fundiário
Levantamento da Epagri/Cepa mostra forte alta no mercado imobiliário rural catarinense em 2025. Preço da terra nua no estado tem diferença superior a 16 vezes.







O mercado imobiliário rural em Santa Catarina registrou forte valorização ao longo de 2025, impulsionado pelo agronegócio e pelas pressões urbanas. Um levantamento da Epagri/Cepa, publicado em 13 de maio de 2026, revelou que o preço da terra agrícola no estado variou substancialmente conforme a aptidão produtiva e a localização, atingindo até R$ 169 mil por hectare em terras de primeira categoria no município de Campos Novos.
O estudo, que coleta dados desde 1997 sempre entre outubro e janeiro, analisa exclusivamente os valores da terra nua, ou seja, sem benfeitorias. Para compor a pesquisa, a metodologia estatística consulta no mínimo três informantes por município e classe de terra, estabelecendo médias seguras sobre o mercado local. Os dados evidenciam que, enquanto algumas áreas disparam por influência de commodities e expansão urbana, outras se mantêm com preços muito menores, expondo uma enorme disparidade nos imóveis rurais catarinenses.
O contraste de preços no mercado imobiliário rural catarinense
Logo atrás de Campos Novos, as várzeas sistematizadas de Turvo, fortemente ligadas à produção de arroz, alcançaram um valor médio de R$ 164 mil por hectare. A Epagri/Cepa explica que esses imóveis rurais voltados à rizicultura foram influenciados pela alta do cereal em anos anteriores, destacando que o modelo de arrendamento representa cerca de 60% da área cultivada em Santa Catarina.
Na ponta oposta do levantamento, o preço despenca. Áreas destinadas à servidão florestal ou reserva legal no município de Otacílio Costa tiveram uma média de R$ 10,37 mil por hectare. A diferença entre a terra mais cara (Campos Novos) e a mais barata (Otacílio Costa) chega a expressivas 16,3 vezes dentro do mesmo estado.
Outros recortes de preços do levantamento incluem R$ 38,34 mil por hectare para terras de segunda categoria em Lebon Régis, R$ 19,75 mil por hectare para terras de terceira em Calmon e R$ 19,91 mil por hectare para campo nativo na cidade de Lages. A Epagri/Cepa alerta, no entanto, que os números são apenas referenciais e não devem balizar negociações imobiliárias diretas ou processos de arbitragem.
Pressão urbana, portuária e a força da soja
O que explica tamanha disparidade na avaliação dos imóveis em Santa Catarina? De acordo com o órgão governamental, as diferenças regionais ocorrem pelo perfil produtivo de cada área, pela aptidão agrícola, pela legislação ambiental e pela crescente pressão imobiliária. No Oeste e no Planalto Norte, por exemplo, os maiores valores encontrados para terras de primeira e segunda categoria estão diretamente associados à presença das lavouras de soja.
Já no litoral catarinense, não é apenas o fator produtivo que eleva os preços, mas também a forte pressão urbana, industrial e portuária. O crescimento demográfico e a busca por terras para desenvolvimento pressionam brutalmente o mercado imobiliário nessas regiões.
Recorde do Valor da Produção Agropecuária (VPA)
A valorização da terra está diretamente ancorada no desempenho financeiro do setor. O Valor da Produção Agropecuária (VPA) catarinense alcançou R$ 74,9 bilhões em 2025. Isso representa um expressivo crescimento nominal de 15,4% em comparação aos R$ 64,8 bilhões registrados em 2024. Mesmo descontada a inflação, o avanço real no período foi de 12,1%.
No peso financeiro, a pecuária dominou com 58% do VPA estadual, seguida pelos grãos com 21%. Apenas seis produtos — suínos, frangos, leite, soja, tabaco e bovinos — concentraram quase 70% de todo o valor gerado. O crescimento de 2024 para 2025 foi alavancado principalmente pelo milho (grão e silagem), maçã, tabaco, bovinos, soja e suínos.
Abismo fundiário: a divisão das terras em SC
Para entender o cenário e o valor dos imóveis rurais, é fundamental observar a base fundiária de Santa Catarina. Conforme o Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, o estado contabilizava 182.489 estabelecimentos agropecuários, totalizando mais de 6,4 milhões de hectares ocupados.
A pesquisa detalha uma estrutura altamente concentrada. A agricultura familiar representava 78,1% do total de propriedades (142.591 estabelecimentos), mas ocupava apenas 38,1% da área disponível (2,45 milhões de hectares). Em contrapartida, a agricultura não familiar somava 21,9% dos estabelecimentos, mas dominava 61,9% de todo o território produtivo (3,99 milhões de hectares).
A desigualdade se torna ainda mais evidente ao segmentar pelo tamanho das áreas. As pequenas propriedades de até 50 hectares eram a esmagadora maioria em 2017: 162.500 unidades (88,8% dos estabelecimentos), mas com acesso a somente 36,5% da área total. No outro extremo, os 1.448 grandes estabelecimentos, com 500 hectares ou mais, correspondiam a meros 0,8% do número de unidades no estado, contudo concentravam impressionantes 30,2% do total de terras agropecuárias de Santa Catarina.













