Construção no Brasil produz 20% menos por trabalhador, diz CNI
Estudo aponta queda de produtividade desde 1995, perda de peso no PIB e desafio para imóveis diante do déficit habitacional.







A construção civil no Brasil chegou a 2024 produzindo 20,4% menos por população ocupada do que em 1995, segundo o estudo “Construção no Brasil: Agenda para Modernização do Setor”, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado em maio de 2026. O levantamento, divulgado em reportagem do Estadão Conteúdo/UOL em 31 de maio de 2026, mostra também que a participação do setor no PIB caiu de 6,4% em 2013 para 3,6% em 2024.
O retrato expõe um paradoxo para o mercado imobiliário: enquanto o país ainda convive com déficit habitacional, a construção perdeu eficiência ao longo de quase três décadas. A CNI cita estimativa da Fundação João Pinheiro de déficit de 5,97 milhões de habitações em 2023; o dado oficial mais recente, divulgado pelo Ministério das Cidades e pela FJP para 2024, aponta 5.773.983 domicílios, equivalentes a 7,4% dos domicílios particulares ocupados.
Produtividade da construção no Brasil fica atrás da indústria
Em 2024, cada trabalhador ocupado na construção gerou, em média, R$ 41,32 mil por ano, segundo a CNI, com base em dados do Observatório da Produtividade da FGV. O valor correspondeu a 44% da produtividade observada na indústria de transformação no mesmo ano.
A comparação internacional também mostra a distância do setor brasileiro em relação a economias mais produtivas. Em 2021, a produtividade do trabalho na construção no Brasil equivalia a 7% da produtividade do setor de construção dos Estados Unidos, conforme o estudo da CNI.
Para a entidade, a baixa eficiência está associada a um conjunto de entraves: baixa qualificação da mão de obra, informalidade elevada, adoção lenta de tecnologias da Indústria 4.0 e baixa aplicação de métodos de gestão. Em 2021, apenas 25% da mão de obra da construção tinha vínculo formal, enquanto a formalidade na indústria de transformação era de 66%.
Déficit habitacional e imóveis: demanda segue pressionando o setor
O déficit habitacional ajuda a dimensionar o desafio dos imóveis no Brasil. Segundo o Ministério das Cidades e a Fundação João Pinheiro, o déficit caiu 3,4% em 2024 ante 2023. Entre 2022 e 2024, houve redução de 441 mil famílias no déficit, enquanto o Minha Casa, Minha Vida entregou 923.851 moradias no mesmo período.
O recuo ocorreu nos três componentes monitorados: ônus excessivo com aluguel, habitação precária e coabitação. No aluguel urbano, o número de domicílios em situação de ônus excessivo passou de 3.665.440 em 2023 para 3.587.777 em 2024.
Ao mesmo tempo, indicadores recentes mostram que a construção não está parada. A CBIC, com base em dados do IBGE, informou que a construção civil cresceu 4,3% em 2024 e encerrou o ano com PIB setorial de R$ 359,523 bilhões. O setor criou 110.133 postos formais e elevou o total de trabalhadores formais para 2,858 milhões.
Mercado imobiliário avançou, mas produtividade limita ganhos
O desempenho de 2024 também foi positivo nos insumos e nos imóveis novos. A produção de insumos típicos da construção cresceu 5,5% após queda de 2,8% em 2023, segundo a CBIC. As vendas de apartamentos novos passaram de 331.359 unidades em 2023 para 400.547 unidades em 2024, alta de 20,9%.
Os lançamentos de apartamentos novos também subiram: foram de 323.329 unidades em 2023 para 383.483 unidades em 2024, avanço de 18,6%. No segmento Minha Casa, Minha Vida, as vendas cresceram 43,3% e os lançamentos avançaram 44,2% em 2024.
Esse contraste torna a agenda de produtividade central para o mercado imobiliário. Há expansão em vendas, lançamentos e emprego formal, mas a CNI aponta que o modelo produtivo ainda opera com baixa industrialização, alta dependência de trabalho no canteiro e limitações de gestão e qualificação.
Construção industrializada é aposta da CNI para imóveis no Brasil
A CNI defende a construção industrializada e off-site como alternativa para elevar produtividade, reduzir desperdício, melhorar qualidade, encurtar prazos, ampliar sustentabilidade e qualificar mão de obra. O estudo lista cinco sistemas disponíveis no Brasil: aço, light steel framing, concreto, madeira ou wood frame e drywall.
A adoção, porém, ainda é parcial. Pesquisa Nacional da Construção da FGV citada pela CNI aponta que 64,5% das empresas de construção usam construção industrializada em algum grau, mas 58,4% aplicam esses processos em no máximo 50% das obras. Apenas 24% usam industrialização em mais de 75% das obras.
Entraves incluem normas, financiamento e capacitação
Entre os obstáculos à transição, a CNI identifica resistência de profissionais, empresas e clientes, falta de conhecimento técnico, investimento inicial em equipamentos e treinamento, baixa padronização e legislação e normas técnicas defasadas diante dos sistemas industrializados.
Como agenda, a entidade propõe usar o Minha Casa, Minha Vida como vetor de industrialização, definir metodologia de construção industrializada para o programa, estruturar benefícios para obras industrializadas, criar atendimento empresarial para a transição, adaptar financiamento e garantias para off-site e usar o FNDIT para pesquisa e desenvolvimento em construção industrializada e sustentável.
A CNI também recomenda criação e adaptação de cursos do SENAI, capacitação de mão de obra, inclusão de construção industrializada em centros técnicos e universitários, atualização de Diretrizes Curriculares Nacionais e treinamento de gestores públicos com base na Lei 14.133/2021.
O que o estudo sinaliza para o setor de construção
O diagnóstico da CNI indica que o problema não é apenas de demanda. O Brasil ainda tem déficit habitacional relevante, vendas de imóveis em crescimento e programas públicos com entrega de moradias. O gargalo apontado está na capacidade de produzir mais, melhor e com menos desperdício.
Para o mercado imobiliário, a queda de produtividade desde 1995 e a perda de participação no PIB mostram que a modernização da construção pode influenciar custos, prazos e oferta futura de moradias. Em um setor diretamente ligado a imóveis, emprego, infraestrutura urbana e políticas habitacionais, a eficiência produtiva tende a pesar cada vez mais na resposta ao déficit habitacional no Brasil.



























