Habitação resiste à Selic: crédito chega a R$ 1,35 tri
No Brasil, estoque de crédito habitacional cresce em abril enquanto crédito livre recua sob juros restritivos.







O crédito direcionado para habitação de pessoas físicas no Brasil cresceu 1,0% em abril de 2026 ante março, atingiu R$ 1,352 trilhão e acumulou alta de 11,7% em 12 meses, segundo dados do Banco Central divulgados em 28 de maio e publicados por UOL/Estadão. O avanço ocorreu em um ambiente de política monetária ainda restritiva: o Copom reduziu a Selic para 14,50% ao ano na reunião de 28 e 29 de abril de 2026, mas registrou que a restrição monetária prolongada já aparecia na desaceleração do crédito, sobretudo nas linhas livres.
O dado central da leitura imobiliária é o contraste. Enquanto a habitação seguiu em alta, o estoque total de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,245 trilhões em abril, com avanço de 0,3% no mês e crescimento de 9,3% em 12 meses. No mesmo período, o crédito livre caiu 0,1%, e o crédito direcionado avançou 0,9%.
Crédito habitacional no Brasil cresce com funding direcionado
A sustentação do crédito para imóveis aparece nas linhas reguladas. Na Nota para a Imprensa de Estatísticas Monetárias e de Crédito, o Banco Central informou que o crédito com recursos livres totalizou R$ 4,1 trilhões em abril, com queda mensal de 0,1% e alta de 7,1% em 12 meses. Já o crédito direcionado somou R$ 3,1 trilhões, com alta de 0,9% no mês e crescimento de 12,2% em 12 meses.
Nas famílias, o crédito direcionado chegou a R$ 2,0 trilhões em abril, com expansão de 0,9% no mês e 9,8% em 12 meses. Esse conjunto ajuda a explicar por que o mercado imobiliário segue com tração mesmo quando o crédito de mercado sente mais rapidamente o peso dos juros.
Selic, juros e crédito livre: o freio aparece em outras linhas
A taxa média de juros das concessões atingiu 33,8% ao ano em abril, com alta de 0,6 ponto percentual no mês e 2,4 pontos percentuais em 12 meses. No crédito livre às pessoas físicas, a taxa média chegou a 63,0% ao ano, com avanço de 1,5 ponto percentual no mês e de 5,0 pontos percentuais em 12 meses.
A inadimplência total do Sistema Financeiro Nacional também subiu: atingiu 4,4% em abril, com alta de 0,1 ponto percentual no mês e 0,9 ponto percentual em 12 meses. Ainda assim, as concessões nominais de crédito somaram R$ 691,5 bilhões em abril e, nas séries com ajuste sazonal, cresceram 2,1% no mês.
Na ata da 278ª Reunião do Copom, o Banco Central afirmou que os efeitos da política monetária restritiva por período prolongado apareciam no início de 2026 pela desaceleração do saldo de crédito, em particular dos créditos livres. O documento também registrou que, em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se “restrição monetária maior e por mais tempo”.
Regras da poupança protegem financiamento de imóveis
Parte da resistência da habitação está no desenho do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo. Pelas regras de direcionamento da poupança vigentes no quadro do Banco Central, integrantes do SBPE devem direcionar no mínimo 65% da base de depósitos de poupança para operações de financiamento imobiliário. Dos recursos direcionados por essa regra, pelo menos 80% devem ir para operações residenciais previstas na Resolução nº 4.676/2018.
O quadro de recolhimento compulsório do Banco Central, atualizado em 1º de dezembro de 2025, explicita esse direcionamento. Antes da mudança anunciada pelo governo em 10 de outubro de 2025, 65% dos depósitos da poupança tinham aplicação obrigatória em crédito imobiliário, 20% eram depositados compulsoriamente no Banco Central e 15% tinham livre aplicação, segundo o Ministério da Fazenda.
Novo modelo de crédito imobiliário terá transição até 2027
O governo anunciou um novo modelo de crédito imobiliário com transição gradual e plena vigência prevista para janeiro de 2027. A mudança elevou o valor máximo do imóvel financiado no Sistema Financeiro da Habitação de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões.
Os dados de mercado reforçam a leitura de demanda ativa por imóveis. Em abril de 2026, financiamentos imobiliários com recursos da poupança SBPE somaram R$ 16,98 bilhões, alta de 35,2% frente a abril de 2025, segundo a BM&C News com dados da Abecip. De janeiro a abril, o volume chegou a R$ 59,4 bilhões, avanço de 17,7% ante o mesmo período de 2025.
Também em abril, foram financiadas aquisições e construções de 55,5 mil imóveis com recursos da poupança SBPE, alta de 1,5% ante março e de 54,4% ante abril de 2025. A poupança SBPE teve captação líquida positiva de R$ 499 milhões, a primeira entrada líquida mensal de recursos em 2026, e o saldo das cadernetas do SBPE atingiu R$ 753,8 bilhões, com alta de 0,70% ante março e crescimento de 0,18% ante abril de 2025.
Mercado imobiliário depende do equilíbrio entre juros e poupança
O retrato de abril mostra um mercado imobiliário que não está imune à Selic, mas opera com amortecedores próprios. O crédito livre já reflete juros mais altos e inadimplência maior. A habitação, por sua vez, segue apoiada no crédito direcionado, nas regras de poupança e no financiamento residencial regulado.
Para compradores, incorporadoras e agentes públicos, o ponto de atenção é a continuidade desse funding. Enquanto o crédito direcionado mantiver expansão, a moradia tende a resistir melhor que outras linhas de financiamento. Mas a fotografia do Banco Central também indica que o custo do dinheiro segue elevado no Brasil, e isso limita o alcance da recuperação do crédito no conjunto da economia.
Fontes
- UOL/Estadão - Estoque total de crédito sobe 0,3% em abril
- Banco Central - Estatísticas Monetárias e de Crédito, maio de 2026
- Banco Central - Ata da 278ª Reunião do Copom
- Banco Central - Quadro Resumo de Recolhimento Compulsório
- Ministério da Fazenda - Novo modelo de crédito imobiliário
- BM&C News - Crédito imobiliário com recursos da poupança em abril



























