Demolição irregular apaga vila de 1937 em São Paulo
Conjunto de casas na Vila Mariana foi derrubado sem autorização válida; Prefeitura aplicou embargo e multa de R$ 15 mil.







Uma vila de casas construída em 1937 na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, foi demolida no sábado, 13 de junho de 2026, sem autorização válida da Prefeitura. Segundo a Folha de S.Paulo, o conjunto tinha nove casas; documentos do Conpresp identificavam o processo de tombamento como referente aos números 275, 281 e 289, casas 1 a 07.
A gestão Ricardo Nunes informou que o alvará usado para a derrubada havia sido expedido em 2018 e tinha validade de dois anos. Após constatar a demolição irregular, a Subprefeitura Vila Mariana lavrou auto de embargo, determinou a paralisação imediata das obras e aplicou multa de R$ 15 mil, de acordo com nota da Prefeitura citada pela Folha.
Demolição irregular na Vila Mariana e regra do alvará em São Paulo
A legislação municipal de São Paulo prevê que o Alvará de Execução destinado à demolição total perde eficácia se a obra não for concluída em até dois anos contados da publicação do deferimento, conforme o artigo 28 da Lei Municipal 16.642/2017. No caso da vila da Conselheiro Rodrigues Alves, a Prefeitura informou que a autorização apresentada era de 2018, portanto sem validade para a demolição realizada em junho de 2026.
O caso ganhou repercussão porque a derrubada ocorreu poucos dias depois de o Conpresp negar o tombamento do conjunto, em 25 de maio de 2026. A Folha relatou que a justificativa do órgão foi a descaracterização e o mau estado de conservação dos imóveis.
Imóveis, mercado imobiliário e patrimônio em disputa
O pedido de tombamento tramitava no processo administrativo 2006-0.267.971-7, com Cintia Ema Padovan como interessada, assunto “Tombamento de Vila” e endereço “Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, 275, 281 e 289 - Casas 1 a 07 - Vila Mariana”, conforme a pauta da 844ª reunião do Conpresp. A Folha informou que o pedido havia sido feito pela primeira vez em 2006 e que Cíntia Padovan, arquiteta, viveu no local por 29 anos.
Em 15 de abril de 2019, a 692ª reunião ordinária do Conpresp aprovou a abertura de processo de tombamento do conjunto, gerando a Resolução 03/CONPRESP/2019. Na mesma ata, o órgão registrou que moradores haviam alertado o Departamento do Patrimônio Histórico em 10 de abril de 2019 sobre risco de demolição, que o alvará de demolição havia sido suspenso pela Subprefeitura da Vila Mariana e que não havia alvará de construção para o local naquele momento.
Segundo a Folha, o DPH havia recomendado a proteção da vila em parecer sobre as condições estruturais e a história dos imóveis. O departamento classificou as casas como exemplares do “Estilo Missões” e como exemplo de construção da classe média paulistana da primeira metade do século 20.
Conpresp analisou a vila em várias reuniões antes da derrubada
O processo voltou à pauta do Conpresp na 827ª reunião ordinária, em 1º de setembro de 2025. A ata informou que, por pedido de adiamento da relatora Marília Barbour, do DPH, o processo seria pautado para a reunião seguinte. Depois, o mesmo processo apareceu em pautas posteriores, incluindo a 839ª reunião, de 23 de março de 2026; a 840ª, de 6 de abril de 2026; a 842ª, de 11 de maio de 2026; e a 844ª, de 25 de maio de 2026.
O SP2/Globoplay também registrou que a vila “quase centenária” tinha recebido recomendação de tombamento e foi demolida na Vila Mariana “mesmo sem autorização”.
Moradores relataram destruição rápida dos imóveis
A presidente da Associação de Moradores da Vila Mariana, Denise Bonfim, de 64 anos, disse à Folha que os tratores entraram no sábado e que, “em menos de três horas”, destruíram tudo. A reportagem informou ainda que os imóveis pertencem à irmandade católica Concepcionistas Missionárias do Ensino, proprietária de um colégio particular na Vila Mariana, e que a entidade não respondeu à Folha até a publicação.
O histórico de tensão em torno da área já havia sido registrado pelo UOL. Em novembro de 2025, a reportagem informou que quem passava pelo número 289 da Avenida Conselheiro Rodrigues Alves via tapumes no local. O UOL relatou que a mudança começou em 2017, quando moradores das sete casas receberam carta para desocupar os imóveis em dois meses; dois anos depois, tratores chegaram a iniciar serviços, mas ex-moradores conseguiram uma ordem judicial que impediu a demolição.
Da memória de moradores ao debate urbano
O UOL identificou Ana Petta como cineasta e ex-moradora da vila. Ela se mudou para a Rodrigues Alves em 2003 e deixou o local em 2017 após receber comunicado de desocupação. Segundo a reportagem, Ana registrou a desocupação em imagens que deram origem ao filme “Amora”, lançado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2025.
O entorno da Chácara das Jaboticabeiras foi tombado pelo Conpresp em 2021, mas a vilinha ficou fora desse tombamento, segundo o UOL. A Resolução SMC/CONPRESP nº 3, de 22 de novembro de 2021, tem como ementa o tombamento do conjunto urbano da Chácara das Jaboticabeiras.
A demolição da vila de 1937 expõe, em São Paulo, a tensão entre preservação urbana, fiscalização pública e pressão sobre imóveis em bairros valorizados. No caso da Vila Mariana, o desfecho conhecido até agora é objetivo: a Prefeitura reconheceu a ausência de autorização válida, embargou a obra e aplicou multa após a perda material do conjunto.
Fontes
- Folha de S.Paulo, 17/06/2026
- Prefeitura de São Paulo, Lei Municipal 16.642/2017
- Prefeitura/Conpresp, pauta da 844ª reunião, 25/05/2026
- Prefeitura/Conpresp, ata da 692ª reunião, 15/04/2019
- Prefeitura/Conpresp, ata da 827ª reunião, 01/09/2025
- Prefeitura/Conpresp, pauta da 839ª reunião, 23/03/2026
- Prefeitura/Conpresp, pauta da 840ª reunião, 06/04/2026
- Prefeitura/Conpresp, pauta da 842ª reunião, 11/05/2026
- Globoplay/SP2, 17/06/2026
- UOL, 08/11/2025
- Prefeitura de São Paulo, Resolução SMC/CONPRESP nº 3/2021



























