Espanha mira 100 milhões de turistas sob pressão dos imóveis
Recorde turístico previsto para 2026 expõe disputa entre crescimento, moradias turísticas e crise habitacional no mercado imobiliário espanhol.







A Espanha caminha para receber 100 milhões de turistas estrangeiros em 2026, segundo estimativa citada pelo ministro da Indústria e Turismo, Jordi Hereu, caso o crescimento do setor continue. O avanço ocorre após o país ter registrado 96,8 milhões de turistas internacionais em 2025, alta de 3,2% sobre 2024, e gasto de turistas não residentes de €134,712 bilhões, crescimento de 6,8%.
O marco turístico, porém, chega em meio a uma pressão crescente sobre imóveis, aluguéis e serviços urbanos. A tensão aparece de forma mais visível em cidades como Barcelona, mas também se espalha por áreas turísticas onde moradias de curta duração e compras por estrangeiros não residentes ganharam peso no mercado imobiliário.
Turismo na Espanha cresce e governo busca descentralizar visitantes
Os dados mais recentes do INE mostram que a demanda continuou aquecida em 2026. Em abril, a Espanha recebeu 9.054.129 turistas internacionais, 5,24% a mais que no mesmo mês de 2025. No acumulado de janeiro a abril de 2026, o número de visitantes cresceu 3,4%.
O governo espanhol afirma que o turismo representa 12,3% do PIB. Em apresentação no Conselho de Ministros, Hereu também informou que o emprego registrado na Seguridade Social em atividades turísticas chegou a 2,75 milhões de pessoas em fevereiro de 2026.
A estratégia oficial tenta responder ao crescimento com três eixos: desestacionalização, desconcentração e diversificação. Na prática, o objetivo é alongar a temporada, levar visitantes a regiões menos saturadas e reduzir a dependência do modelo de sol e praia.
Moradias turísticas pressionam o mercado imobiliário
A crise habitacional dá o contorno mais sensível ao debate. O Banco de España estimou déficit acumulado de 750.000 moradias no país entre 2021 e 2025, equivalente a 3,7% dos domicílios residentes em 2025. Metade desse déficit se concentra em seis províncias: Madri, Barcelona, Alicante, Valência, Murcia e Málaga.
No mesmo relatório, o banco central calculou que as moradias turísticas representam 1,5% do parque habitacional espanhol, mas cerca de 10% do mercado de aluguel, com forte concentração territorial. Em 2025, esse peso chegou a 28,9% na área urbana de Málaga, 12,9% em Las Palmas de Gran Canaria, 12,1% em Sevilha, 9,6% em Santa Cruz de Tenerife, 7,6% em Palma, 5,7% em Valência, 4,0% em Barcelona e 2,8% em Madri.
Nos centros das zonas turísticas, a concentração é ainda mais alta. O Banco de España apontou participação de moradias turísticas no mercado de aluguel de 44,6% em Málaga, 44,9% em Sevilha, 26,9% em Las Palmas de Gran Canaria, 22,2% em Barcelona e 14,9% em Madri.
Dados do INE mostram queda, mas série ainda é experimental
O INE estimou 329.764 moradias turísticas ofertadas na Espanha em novembro de 2025, queda de 12,4% frente às 376.463 de novembro de 2024. Essa oferta equivalia a 1,24% do total de moradias censadas. A própria base, porém, é classificada como estatística experimental, por ainda não ter maturidade suficiente de confiabilidade, estabilidade ou qualidade para integrar a estatística oficial.
O Banco de España, por sua vez, estimou que as moradias turísticas cresceram entre 2021 e 2024 até 400.000 unidades e caíram para cerca de 355.000 unidades em média em 2025.
Barcelona endurece regras para apartamentos turísticos
Barcelona tornou-se o caso mais emblemático da reação regulatória. A prefeitura decidiu retirar todas as licenças de apartamentos turísticos até 2028. Em 21 de junho de 2024, o prefeito Jaume Collboni anunciou a não renovação de 10.101 licenças até novembro de 2028, com o objetivo de converter esses imóveis em moradias principais.
Na ocasião, Collboni afirmou que, nos dez anos anteriores a junho de 2024, os preços de moradia em Barcelona haviam subido 68%, enquanto os salários tinham avançado 38%. Hereu elogiou o plano da cidade e defendeu, em junho de 2026, regular, limitar e tributar melhor a oferta turística.
A tensão social também chegou às ruas. Em 15 de junho de 2025, manifestantes em Barcelona e Mallorca usaram pistolas de água contra turistas durante protestos contra o turismo de massa e contra um modelo econômico que, segundo os manifestantes, alimenta a escassez de moradia e altera o caráter das cidades. A Associated Press registrou atos também em outras cidades espanholas, além de ações na Itália e em Portugal.
Regulação de aluguéis e disputa por imóveis na Espanha
A resposta institucional inclui novas ferramentas de controle. O Real Decreto 1312/2024 criou o Registro Único de Arrendamentos e a Ventanilla Única Digital de Arrendamientos para serviços de aluguel de curta duração, com finalidade turística e não turística remunerada. As obrigações operacionais passaram a produzir efeitos em 1º de julho de 2025.
Em maio de 2025, o Ministério de Direitos Sociais, Consumo e Agenda 2030 ordenou à Airbnb o bloqueio de 65.935 anúncios de moradias turísticas consideradas ilícitas, todos referentes a moradias completas. O Tribunal Superior de Justiça de Madri determinou a retirada imediata de uma primeira leva de 5.800 anúncios.
O problema não se limita aos pisos turísticos. O Banco de España calculou que o estoque conjunto de moradias de estrangeiros não residentes e moradias de uso turístico chegou a quase 900.000 unidades em 2025, equivalente a 3,3% do parque habitacional espanhol. Em Alicante, esse conjunto representava 14,5% do parque; em Málaga, 14,1%; em Girona e nas Ilhas Baleares, 10,9%; e em Santa Cruz de Tenerife, 9,1%.
Entre 2021 e 2025, compras de moradia por não residentes representaram 7,4% das transações na Espanha. A participação foi muito maior em alguns mercados: 33,3% em Alicante, 27,9% em Málaga, 23,0% nas Ilhas Baleares e 20,3% em Santa Cruz de Tenerife.
O paradoxo do turismo recorde e da crise habitacional
Para tentar reorganizar o setor, a Espanha aprovou sua Estratégia de Turismo 2030 no último trimestre de 2025 e a apresentou às comunidades autônomas em fevereiro de 2026. O Plano de Modernização e Competitividade do Setor Turístico tem orçamento de €3,4 bilhões, financiado por fundos europeus Next Generation, dos quais €2,166 bilhões já haviam sido transferidos às comunidades autônomas até fevereiro de 2026.
O desafio é transformar crescimento em distribuição territorial e temporal sem ampliar a exclusão no mercado imobiliário. A aproximação dos 100 milhões de visitantes coloca a Espanha diante de uma pergunta central: como preservar a força econômica do turismo sem converter imóveis residenciais em ativos de curta duração inacessíveis para moradores.
Fontes
- INE, España en cifras 2026
- INE/FRONTUR, últimos dados
- Reuters via Hotel Online
- La Moncloa, Council of Ministers press conference
- La Moncloa, Tourism Sector Conference
- Newtral com dados do INE
- Dataestur/INE, viviendas de uso turístico
- Banco de España, Informe Anual 2025
- BOE, Real Decreto 1312/2024
- Cuatrecasas, nuevas obligaciones en arrendamientos de temporada
- Ministerio de Derechos Sociales, Consumo y Agenda 2030
- Ajuntament de Barcelona, habitatges turístics
- Catalan News, Barcelona tourist apartments
- Associated Press, Spain tourism housing protest
- The Guardian, Spain offbeat regions and overtourism



























