Florença amplia veto a novos Airbnbs contra crise habitacional
Câmara Municipal estende bloqueio a locações turísticas breves para bairros fora da área Unesco e passa a cobrir 103.373 moradias.







Florença aprovou em 4 de junho de 2026 a ampliação do bloqueio a novas autorizações de locações turísticas breves, medida que atinge diretamente o mercado imobiliário da cidade em meio à crise habitacional. A deliberação do Consiglio comunale foi aprovada com 20 votos favoráveis, 8 contrários, 2 abstenções e 7 ausentes no momento da votação.
Na prática, o veto, antes concentrado na área Unesco, passa a alcançar bairros da primeira cintura urbana. Segundo a Prefeitura, a área sob restrição sobe para 16,26 km² e passa a abranger 103.373 moradias: 35.593 já cobertas na zona A1 e outras 67.780 nas novas zonas A3 e A4.
Mercado imobiliário em Florença terá bloqueio ampliado
A medida integra o Regulamento de Locações Turísticas Breves e foi proposta pelo assessor Jacopo Vicini. O bloqueio será estendido a Campo di Marte, San Jacopino, Gavinana, Pignoncino e Paolo Uccello, Statuto e Rifredi, Libertà, Oberdan e Savonarola, Bronzino e Pier Vettori, Fonderia e Petrarca.
Essas áreas correspondem às sottozone A3 e A4 do Piano Operativo Comunale. Juntas, elas somam 11,21 km². A zona A1, que corresponde à área Unesco e já estava coberta desde 31 de maio de 2025, tem cerca de 5,05 km².
A Prefeitura sustenta que a ampliação responde ao risco de deslocamento da pressão turística para fora do centro histórico. A análise técnica usada para justificar a mudança foi feita pelo Departamento MEMOTEF da Universidade La Sapienza de Roma em colaboração com o escritório de estatística do Comune de Florença.
Airbnb, imóveis e pressão sobre moradia em Florença
Segundo o Comune, o estudo apontou no núcleo histórico A1 uma “pressão elevadíssima”, com risco moderado e vulnerabilidade médio-baixa. Nas zonas A3 e A4, a Prefeitura informou pressão alta, de 20% a 44%, risco elevado de até +97% e possibilidade de spillover caso as restrições permanecessem limitadas à A1.
O avanço das locações turísticas ajuda a explicar a decisão. Com base em dados do Inside Airbnb citados pela Prefeitura, os anúncios online de locações turísticas em Florença passaram de 10.867 em 2023 para 12.211 em 2026. Cerca de 85% desses anúncios estavam no centro histórico.
O Observatório Turístico Regional registrou 16.906 atividades de locação turística no Comune de Florença. Ainda segundo a Prefeitura, essa tipologia responde por cerca de 56% dos leitos totais da cidade.
Turismo cresce e pressiona o mercado de imóveis
Em 2025, as estruturas receptivas da cidade registraram mais de 4,7 milhões de chegadas e 11,5 milhões de presenças ou pernoites. Os números representaram alta de 10,2% e 11,1%, respectivamente, sobre 2024.
A Reuters informou em 27 de maio de 2026 que a proposta não reduziria imediatamente o número de locações turísticas existentes, mas impediria novas ativações quando entrasse em vigor. A leitura é central para o impacto no mercado imobiliário: o bloqueio atua sobre novas autorizações, sem retirar de imediato imóveis que já estavam em operação regular.
Nos cinco primeiros meses de 2026, a Prefeitura informou que foram emitidas 270 autorizações de locação turística breve. No período de junho a dezembro de 2025, haviam sido 132. Das 402 autorizações emitidas desde o início do regulamento, 8 estavam na área Unesco.
Como funciona a regra para locações turísticas breves
O regulamento municipal em vigor desde 31 de maio de 2025 exige autorização quinquenal para cada unidade imobiliária usada em locação turística breve no território do Comune de Florença. Na fase inicial, imóveis já regularmente destinados a esse uso durante 2024 ficam excluídos das restrições por três anos a partir da entrada em vigor do regulamento, prazo que a Prefeitura identifica como vencendo em 31 de maio de 2028.
O regulamento também fixa área mínima de 28 m² para unidades habitacionais usadas em locação turística breve e prevê sanções administrativas de €1.000 a €10.000 para violações dos artigos 6 e 7.
Base legal da restrição em Florença
A base regional citada pelo Comune é a Lei Regional Toscana nº 61, de 31 de dezembro de 2024. O artigo 59 permite que municípios de maior densidade turística e capitais de província definam, por regulamento próprio, zonas ou áreas com critérios e limites específicos para locações breves turísticas.
A Corte Constitucional italiana, na sentença nº 186/2025, declarou não fundadas as questões de constitucionalidade levantadas contra o artigo 59 da Lei Regional Toscana nº 61/2024 em relação aos artigos 3 e 117 da Constituição italiana.
Florença vira laboratório da crise habitacional
Com a ampliação, Florença aprofunda uma política pública que tenta reorganizar a relação entre turismo, imóveis e moradia. A cidade passa a tratar não apenas o centro histórico, mas também bairros da primeira cintura urbana, como áreas vulneráveis à expansão das locações turísticas breves.
O efeito imediato é barrar novas ativações nas áreas incluídas. O alcance futuro dependerá da aplicação do regulamento e do término do período de exclusão dos imóveis já regularmente usados em 2024, identificado pela Prefeitura como 31 de maio de 2028.
Fontes
- Comune di Firenze, deliberação aprovada em 4 de junho de 2026
- Comune di Firenze, modificação ao regulamento de locações turísticas breves
- Comune di Firenze, página Locazioni Turistiche Brevi
- Reuters via MarketScreener, proposta de expansão das restrições em Florença
- Comune di Firenze, Regulamento para locações turísticas breves de 31 de maio de 2025
- Regione Toscana, Lei Regional nº 61/2024
- Corte Costituzionale, sentença nº 186/2025



























