Laudos falsos expõem risco em imóveis financiados no Brasil
Reportagens apontam construtoras que teriam liberado recursos da Caixa com obras incompletas e documentos falsos em financiamentos habitacionais.







Uma reportagem exibida pelo Fantástico em 17 de maio de 2026 expôs um esquema que, segundo a descrição oficial do vídeo, se repetiria no Brasil: construtoras apresentariam laudos falsos à Caixa Econômica Federal para liberar parcelas de financiamentos habitacionais sem executar as obras previstas. O caso atinge famílias que contrataram crédito para construir a casa própria e encontraram imóveis parados enquanto recursos já haviam sido pagos.
O tema toca diretamente o mercado imobiliário porque envolve uma etapa sensível do financiamento para construção: a liberação progressiva do dinheiro conforme a obra avança. Na linha de crédito imobiliário para construção, a Caixa informa que financia até 80% da construção do imóvel, com prazo de pagamento de até 35 anos, e que realiza vistorias para verificar a evolução das etapas previstas em cronograma.
Como o risco aparece no financiamento de imóveis no Brasil
Segundo a Caixa, nessa modalidade o crédito é liberado conforme a execução da etapa declarada pelo cliente em conjunto com o profissional responsável pela obra. O banco também afirma que o cliente e o responsável técnico respondem pelas informações de evolução repassadas e pelo acompanhamento do cronograma pactuado em contrato.
A investigação do repórter Giovani Grizotti, exibida no Fantástico, mostrou o problema quando esse fluxo passa a ser alimentado por informações supostamente falsas. De acordo com o material publicado pelo G1, famílias relataram que planilhas e documentos indicavam avanço de obras muito superior ao que havia nos terrenos.
Casa própria: documentos indicavam obra avançada, mas perícia apontou menos da metade
No caso de Izael Mendes e Marcela Teles, a reportagem informou que o casal contratou financiamento estimado entre R$ 400 mil e R$ 500 mil para construir a casa própria. Documentos apresentados pela construtora Âmbar Prumo indicavam mais de 80% da obra concluída, mas perícia citada na reportagem apontou que menos da metade havia sido executada.
A mesma perícia apontou falsificação de assinaturas atribuídas a Marcela Teles nos documentos usados no processo de liberação de recursos. Depois de suspeitar da fraude, o casal interrompeu o pagamento das parcelas e foi informado de que o imóvel poderia ir a leilão para quitar a dívida.
O caso mostra uma dimensão crítica para quem compra ou constrói imóveis com financiamento: a dívida bancária pode continuar existindo mesmo quando a obra não corresponde ao estágio informado nos documentos. A reportagem não tratou de uma discussão abstrata sobre mercado imobiliário, mas de famílias com contratos, parcelas e terrenos sem a casa prometida.
Alvorada: obra parada e mais de R$ 200 mil liberados
Em Alvorada, no Rio Grande do Sul, Guilherme Both e Bruna Both contrataram em 2022 um financiamento de R$ 290 mil pela Caixa para construir uma casa. Eles afirmaram ao G1 que Pedro André Marchese Sessegolo apresentou a construtora ao casal e trabalhava na agência da Caixa onde o contrato foi assinado.
O casal relatou que planilhas enviadas à Caixa indicavam cobertura, instalações elétricas e hidráulicas praticamente concluídas. Guilherme, porém, afirmou ter encontrado apenas parte da estrutura levantada. Segundo a reportagem, a construtora recebeu mais de R$ 200 mil do financiamento antes de abandonar a obra.
Além da dívida bancária, Guilherme e Bruna disseram ter perdido cerca de R$ 62 mil pagos diretamente à construtora como entrada. Documentos obtidos pela RBS TV, citados pelo Portal Grupo Missões, indicaram que um processo administrativo interno da Caixa resultou na demissão por justa causa de Pedro André Marchese Sessegolo.
Defesa nega irregularidades e Caixa cita compliance
Segundo o processo interno citado pela RBS TV, Sessegolo teria utilizado o cargo em benefício próprio e tratado informações sigilosas de clientes de forma inadequada. A defesa dele nega irregularidades e afirma que ele apenas buscava dar celeridade aos processos. A Caixa informou que tem mecanismos de governança e compliance para apurar desvios de conduta e que suspeitas de fraude são investigadas.
A Caixa também informou, conforme a mesma reportagem, que Sessegolo recorre da demissão na Justiça do Trabalho e nega ter causado prejuízo financeiro à instituição. As fontes disponíveis não informam condenação criminal dele nos casos citados.
Pernambuco, Piauí e Distrito Federal ampliam o alerta no mercado imobiliário
A reportagem do Fantástico também citou um caso em Pernambuco envolvendo a construtora Multicons, denunciada por cobrar valores acima do executado e reter a diferença. Segundo publicação do Sindicato dos Bancários de Goiás, o dono da Multicons foi condenado por estelionato, o prejuízo informado ultrapassou R$ 126 mil, a defesa afirmou que os valores recebidos foram aplicados na obra e recorre da decisão.
Há registros anteriores de investigações federais sobre fraudes semelhantes. Em 14 de abril de 2023, a Polícia Federal deflagrou em Parnaíba, no Piauí, a Operação Casa de Papel para investigar grupo suspeito de fraudar contratos de financiamento habitacional em prejuízo da Caixa. A PF afirmou que os investigados teriam usado documentos falsos e fotos falsas para atestar evolução de obras residenciais e liberar parcelas do financiamento.
Na mesma investigação, a Polícia Federal informou que as obras sequer haviam sido iniciadas nos terrenos dos contratos com indícios de fraude. A Justiça Federal determinou sequestro de valores superior a R$ 380 mil, quantia atribuída pela PF a recursos recebidos por meio do financiamento habitacional fraudulento.
Em 2025, a PF informou ter identificado cerca de 17 contratos de financiamento imobiliário com indícios de fraude no Distrito Federal e entorno, com prejuízo aproximado de R$ 1,8 milhão à Caixa. Segundo a corporação, o grupo usava empresa de fachada no ramo da construção civil, imóveis fictícios, processos de habite-se fictícios e fraude em vistorias para obter financiamentos habitacionais.
Transparência é ponto central para famílias e para a Caixa
Os casos reunidos pelas reportagens e pela Polícia Federal apontam para o mesmo ponto de atenção: em financiamentos para construção, a documentação sobre o estágio da obra é decisiva para a liberação do dinheiro. Quando laudos, planilhas, fotos ou assinaturas não correspondem ao que existe no terreno, o risco recai sobre famílias, banco público e cadeia da construção.
Para o setor de imóveis no Brasil, a apuração reforça a necessidade de rastreabilidade nos processos, verificação efetiva das etapas e clareza sobre responsabilidades. O financiamento da casa própria depende de confiança documental; quando essa confiança falha, a promessa de moradia pode se transformar em dívida, obra parada e disputa judicial.



























