Palácio em Salvador vira hotel de luxo de R$ 250 milhões
Palácio Rio Branco recebeu ordem de serviço para virar Hotel Allard, com 90 suítes, concessão por 35 anos e debate sobre acesso público.







O Palácio Rio Branco, na Praça Thomé de Souza, no Centro Histórico de Salvador, recebeu em 1º de junho de 2026 ordem de serviço para o início imediato das obras de requalificação que devem transformá-lo no Hotel Allard, empreendimento de luxo anunciado pelo governo baiano como de “classificação seis estrelas”. O projeto prevê R$ 250 milhões em investimento, 90 suítes e concessão privada por 35 anos.
A autorização foi assinada pela Secretaria de Turismo da Bahia, pela Mata Holding e pela construtora André Guimarães. Segundo a Setur-BA, as obras devem gerar 2,5 mil empregos diretos. A pasta também informou que o plano inclui piscina com vista para a Baía de Todos-os-Santos, spa internacional, três restaurantes e academia.
Hotel de luxo em Salvador terá 90 suítes no Palácio Rio Branco
Das 90 suítes previstas para o Hotel Allard, 27 ficarão no edifício histórico do Palácio Rio Branco. As demais serão instaladas em área anexa, conforme o projeto divulgado pela Secretaria de Turismo da Bahia. A Folha de S.Paulo informou que o contrato prevê prazo de três anos para conclusão das obras, enquanto os investidores estimam entregar o empreendimento com um ano de antecedência.
Na apresentação feita pelo governo baiano, Daniel Sande, CEO da André Guimarães, declarou expectativa de conclusão entre 18 e 24 meses. A diferença entre o prazo contratual e a estimativa dos investidores ajuda a dimensionar o calendário do projeto, que coloca um dos imóveis históricos mais relevantes de Salvador no centro do debate sobre turismo, patrimônio e mercado imobiliário de luxo.
Mercado imobiliário e turismo no Centro Histórico de Salvador
A concessão dá à iniciativa privada o direito de explorar o espaço por 35 anos. Em janeiro de 2022, quando a licitação foi disponibilizada, o valor referencial informado era de R$ 26.581.505,88. Desse total, R$ 25.593.505,88 se referiam à concessão do Palácio Rio Branco e R$ 988.000,00 ao terreno anexo.
Para o mercado imobiliário de Salvador, o projeto é relevante por combinar um ativo público histórico, uma operação hoteleira de alto padrão e uma localização estratégica no Centro Histórico. A pauta também dialoga com a valorização de imóveis ligados a turismo, patrimônio cultural e serviços de luxo, embora os dados disponíveis não tragam estimativas de impacto sobre preços ou IPTU no entorno.
Concessão do Palácio Rio Branco teve contestação judicial
A transformação do palácio em hotel não avançou sem resistência. Em 18 de janeiro de 2022, o Ministério Público da Bahia recomendou que a Setur suspendesse imediatamente a concorrência pública por prazo prorrogável de 30 dias. O MPBA alegou risco de danos ao patrimônio público e afronta ao princípio da transparência.
Dois dias depois, em 20 de janeiro de 2022, o Ministério Público ajuizou ação civil pública contra o Estado da Bahia, representado pela Setur, e contra o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, pedindo a suspensão imediata do processo licitatório. Na ação, o MPBA apontou dúvidas sobre o acesso público ao Memorial dos Governadores, ao salão de banquetes, à sala dos espelhos e ao belvedere.
O órgão também questionou critérios de cálculo do valor da concessão e a retomada do prédio principal e do anexo ao fim dos 35 anos. Em abril de 2023, Governo da Bahia, Ministério Público Federal e BM Varejo firmaram acordo em ação civil pública sobre a concessão, com previsão de restauração do imóvel, implantação de hotel, ações culturais e acesso público a áreas históricas importantes do Palácio.
Ação popular ainda questionava a concessão em 2026
Em 3 de junho de 2026, A Tarde informou que a Ação Popular nº 8148421-40.2021.8.05.0001, na 7ª Vara da Fazenda Pública, questionava a concessão e contestava o Decreto Estadual nº 20.814/2021 e a concorrência pública nº 001/2022. Na mesma ação, decisão de 10 de abril de 2026 do juiz Glauco Dainese de Campos determinou a inclusão da BM Varejo no polo passivo.
A decisão também determinou que o Iphan apresentasse pareceres técnicos e estudos de impacto sobre a viabilidade do hotel no edifício tombado. Esse ponto mantém em evidência a tensão central do projeto: como conciliar a exploração privada de um imóvel de luxo com a preservação do patrimônio e a garantia de acesso público.
Patrimônio histórico será reaberto com museu e áreas visitáveis
O projeto prevê a criação de um museu aberto à visitação, administrado pelo hotel, além da manutenção do acesso público a áreas históricas do edifício e do funcionamento do Memorial dos Governadores. A CNN Brasil informou que o Palácio Rio Branco estava fechado desde 2021.
A importância simbólica do imóvel é anterior à própria configuração atual do prédio. Segundo a Folha de S.Paulo, o Palácio Rio Branco foi construído em 1549 a mando do primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, e foi a primeira sede do governo colonial. O IBGE registra que a instalação começou a ser construída por Tomé de Sousa em meados do século XVI para ser o centro da administração portuguesa e a primeira Casa de Governo.
O edifício também atravessou momentos decisivos da história urbana de Salvador. De acordo com o IBGE, o prédio foi atingido no bombardeio de Salvador em 10 de janeiro de 1912, ficou praticamente em ruínas e teve a construção atual reinaugurada em 15 de novembro de 1919 com o nome Palácio Rio Branco. O centro de decisões do Estado da Bahia permaneceu no local até 1979, quando foi transferido para o Centro Administrativo da Bahia.
O que observar no projeto do Hotel Allard
Com investimento anunciado de R$ 250 milhões, o Hotel Allard coloca Salvador no mapa dos empreendimentos hoteleiros de altíssimo padrão, mas também impõe um teste público. A execução das obras, os pareceres técnicos, a preservação das áreas históricas e a efetiva abertura à visitação serão os pontos centrais para avaliar se a concessão conseguirá compatibilizar turismo de luxo, transparência pública e proteção patrimonial.
Até aqui, os dados oficiais apontam para um projeto de grande escala em um imóvel histórico: 90 suítes, 2,5 mil empregos diretos estimados, concessão por 35 anos e promessa de reabertura de áreas ao público. O desfecho dependerá da obra, das exigências de preservação e da capacidade de transformar um ativo simbólico de Salvador sem afastá-lo da população.



























