Poupança injeta R$ 2,6 bi e alivia crédito imobiliário no Brasil
Entrada líquida em maio ocorre mesmo com Selic a 14,50% ao ano e reforça funding usado nos financiamentos de imóveis.







A caderneta de poupança voltou a registrar entrada líquida de recursos em maio de 2026 no Brasil, com saldo positivo de R$ 2,604 bilhões, segundo dados do Banco Central divulgados em 9 de junho e republicados pelo Valor Investe via Abecip. O resultado veio de R$ 368,3 bilhões em depósitos e R$ 365,7 bilhões em saques, em um mês marcado pela Selic ainda elevada, a 14,50% ao ano.
Para o mercado imobiliário, o dado tem peso porque a poupança segue como uma das principais fontes de recursos para o crédito habitacional. A entrada líquida de maio reverteu o saldo negativo de R$ 476,4 milhões de abril de 2026 e superou a captação positiva de R$ 336,8 milhões registrada em maio de 2025.
Poupança no Brasil vira alívio para imóveis sob Selic alta
O movimento chama atenção porque ocorreu em um ambiente em que a renda fixa segue competitiva. O Copom reduziu a taxa Selic para 14,50% ao ano na 278ª reunião, em abril de 2026. Antes disso, entre junho de 2025 e março de 2026, a taxa ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos, segundo a Agência Brasil.
A própria Agência Brasil relacionou os saques da poupança nos períodos anteriores à manutenção da Selic em patamar elevado, por estimular aplicações com melhor desempenho. Quando a Selic supera 8,5% ao ano, a remuneração da poupança fica limitada a 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano, mais TR, conforme o Valor Investe/Abecip.
Mesmo assim, maio foi o primeiro mês de 2026 com entrada líquida na poupança. A melhora pontual não elimina o saldo negativo acumulado no ano: de janeiro a maio, a retirada líquida ainda somava R$ 39,1 bilhões. A Agência Brasil informou também que os rendimentos creditados nas contas de poupança chegaram a R$ 6,2 bilhões em maio e que o saldo total ficou pouco acima de R$ 1 trilhão.
Crédito imobiliário depende do funding da poupança
A relevância para quem acompanha imóveis está no papel da caderneta como base do financiamento habitacional. Antes da reforma anunciada pelo governo federal em outubro de 2025, 65% dos depósitos da poupança precisavam ser aplicados em crédito imobiliário, 20% eram recolhidos compulsoriamente ao Banco Central e 15% tinham livre aplicação.
O novo modelo permite uma elevação gradual para que 100% dos recursos provenientes dos saldos da poupança possam ser usados em crédito imobiliário. A vigência foi escalonada: parte das mudanças entrou em vigor na publicação da norma, outra parte em 1º de janeiro de 2026, e os demais dispositivos entram em vigor em 1º de janeiro de 2027, conforme a Resolução CMN nº 5.255/2025.
Segundo o Banco Central, o novo modelo de financiamento imobiliário viabiliza R$ 111 bilhões em recursos no primeiro ano. Desse total, R$ 52,4 bilhões são adicionais ao volume então destinado ao financiamento habitacional, e R$ 36,9 bilhões ficaram disponíveis de forma imediata.
Mercado imobiliário tem sinais mistos em 2026
Os dados da Abecip mostram que o crédito imobiliário com recursos das cadernetas SBPE somou R$ 16,98 bilhões em abril de 2026. O valor representou queda de 8,1% em relação a março, mas alta de 35,2% frente a abril de 2025.
No acumulado de janeiro a abril de 2026, os financiamentos imobiliários com recursos da poupança chegaram a R$ 59,4 bilhões, avanço de 17,7% em comparação com o mesmo período de 2025. Em abril, foram financiadas 55,5 mil aquisições e construções de imóveis com recursos da poupança SBPE, alta de 1,5% ante março e de 54,4% contra abril de 2025.
O recorte de 12 meses, porém, aponta perda de fôlego. Nos 12 meses encerrados em abril de 2026, os financiamentos com recursos da poupança SBPE somaram R$ 165,2 bilhões e financiaram 494,2 mil imóveis, com quedas de 9,7% em valor e de 6,9% em unidades frente aos 12 meses anteriores.
SFH, teto de imóveis e juros no novo modelo
A reforma também alterou parâmetros relevantes para o financiamento de imóveis no Brasil. O teto do imóvel financiado pelo Sistema Financeiro da Habitação foi elevado de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões, segundo a Casa Civil. No desenho divulgado pelo governo, 80% dos financiamentos habitacionais devem seguir regras do SFH, que limitam juros a 12% ao ano.
Esse redesenho regulatório busca ampliar a utilização dos saldos da poupança no crédito imobiliário em um momento de juros altos e competição intensa por recursos dos investidores. A poupança SBPE, segundo a Abecip, teve captação líquida positiva de R$ 499 milhões em abril de 2026, saldo de R$ 753,8 bilhões e perda acumulada de R$ 31,5 bilhões no primeiro quadrimestre.
O que o dado de maio indica para o crédito imobiliário
A entrada líquida de R$ 2,604 bilhões em maio não muda sozinha o quadro de pressão sobre a poupança, que teve retiradas líquidas anuais de R$ 87,8 bilhões em 2023, R$ 15,5 bilhões em 2024 e R$ 85,6 bilhões em 2025. Mas o resultado interrompe, ao menos no mês, a sequência de saídas de 2026 e melhora a disponibilidade de recursos em uma fonte central para o financiamento habitacional.
Para compradores, construtoras e bancos, a leitura é de alívio limitado, mas relevante. Com Selic ainda elevada, remuneração da poupança limitada e transição regulatória em andamento até janeiro de 2027, o mercado imobiliário brasileiro segue dependente tanto da estabilidade da captação quanto da efetiva conversão desses saldos em crédito para imóveis.
Fontes
- Valor Investe/Abecip - Brasileiros voltam a depositar mais do que sacar dinheiro da poupança
- Agência Brasil - Poupança tem entrada líquida de R$ 2,6 bilhões em maio
- Banco Central - Copom reduz Selic para 14,50% ao ano
- Casa Civil - Governo anuncia novo modelo de crédito imobiliário
- Resolução CMN nº 5.255/2025 via LegisWeb
- Banco Central - Novo modelo de financiamento imobiliário
- Abecip - Data Abecip abril de 2026



























