Poupança fraca pressiona crédito imobiliário no Brasil
Selic ainda alta reduz competitividade da poupança e aperta a principal fonte tradicional de funding para imóveis no país.







A perda de força da poupança voltou ao centro do debate sobre crédito imobiliário no Brasil em junho de 2026. Mesmo após o Banco Central reduzir a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano em 17 de junho, a renda fixa atrelada à taxa básica continuava oferecendo retorno maior que a caderneta, segundo o UOL. O resultado é um ambiente em que bancos mantêm apetite para financiar imóveis, mas enfrentam pressão sobre a fonte histórica de recursos do setor.
O problema aparece com nitidez no Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, o SBPE. Dados apresentados pelo Bradesco e citados pelo Valor Econômico via Abecip indicavam saldo de R$ 754 bilhões na poupança SBPE em abril de 2026. Em maio, a própria Abecip informou que o saldo das cadernetas do SBPE chegou a R$ 760,7 bilhões, alta de 0,92% sobre abril e de 0,51% sobre maio de 2025.
Selic alta muda o jogo da poupança e dos imóveis no Brasil
A poupança total brasileira teve entrada líquida de R$ 2,6 bilhões em maio de 2026, com R$ 368,4 bilhões em depósitos, R$ 365,8 bilhões em saques, R$ 6,2 bilhões em rendimentos creditados e saldo pouco acima de R$ 1 trilhão, segundo a Agência Brasil. O dado mensal, porém, não elimina a tendência de esvaziamento acumulada no ano.
Entre janeiro e maio de 2026, a poupança acumulou retirada líquida de R$ 39,1 bilhões. O histórico recente também mostra pressão: houve saques líquidos de R$ 87,8 bilhões em 2023, R$ 15,5 bilhões em 2024 e R$ 85,6 bilhões em 2025, de acordo com a mesma fonte.
No recorte diretamente ligado ao crédito imobiliário, a Abecip registrou captação líquida positiva de R$ 2,3 bilhões na poupança SBPE em maio de 2026, ante resultado negativo de R$ 128,6 milhões em maio de 2025. Ainda assim, no acumulado de janeiro a maio de 2026, o SBPE ficou negativo em R$ 29,2 bilhões, contra R$ 39,1 bilhões negativos no mesmo período de 2025.
Funding imobiliário fica menos dependente da poupança
A mudança estrutural está na composição do funding imobiliário. Segundo dados do Banco Central citados pelo Bradesco, a participação da poupança caiu de 34% em dezembro de 2023 para 29% em dezembro de 2025. No mesmo intervalo, as Letras de Crédito Imobiliário, as LCIs, subiram de 17% para 19%, enquanto o funding total avançou de R$ 2,20 trilhões para R$ 2,63 trilhões.
Esse deslocamento já aparecia em junho de 2025. Naquele mês, as LCIs somavam R$ 473 bilhões e representavam 19% da estrutura de funding imobiliário, segundo o InfoMoney. A poupança SBPE respondia por 30%, o FGTS por 26%, os Certificados de Recebíveis Imobiliários somavam R$ 239 bilhões e 10%, e os Fundos Imobiliários reuniam R$ 272 bilhões e 11%.
Para o mercado imobiliário, a diversificação pode ampliar fontes de recursos, mas não elimina o desafio de custo. Com a Selic em patamar elevado, instrumentos de renda fixa tendem a disputar o dinheiro do investidor com a poupança, justamente a base tradicional do crédito habitacional.
Crédito imobiliário avança no mês, mas recua em 12 meses
O comportamento das concessões mostra um quadro misto. Em março de 2026, os financiamentos imobiliários com recursos do SBPE alcançaram R$ 18,5 bilhões, alta de 56,9% ante fevereiro e de 53,9% ante março de 2025, segundo a Abecip. No acumulado de 12 meses encerrado em março, porém, o volume financiado foi de R$ 160,8 bilhões, queda de 13,5% ante os 12 meses anteriores.
O número de imóveis financiados seguiu a mesma lógica. Em março de 2026, foram financiados 54,6 mil imóveis com recursos do SBPE, alta de 55,5% ante fevereiro e de 59,2% ante março de 2025. Nos 12 meses encerrados em março, foram 474,7 mil imóveis, queda de 12,7% sobre o período anterior.
O ajuste já vinha de antes. No primeiro semestre de 2025, o crédito concedido com poupança SBPE caiu de R$ 82,1 bilhões no primeiro semestre de 2024 para R$ 73,6 bilhões, retração de 10%, segundo o InfoMoney.
Bradesco acelera mesmo com pressão no crédito imobiliário
O caso do Bradesco expõe o paradoxo do setor. A carteira imobiliária do banco somava R$ 148,3 bilhões em março de 2026, alta de 7,9% em 12 meses. O montante equivalia a 191% do valor correspondente a 65% do saldo de poupança do banco, percentual usado como referência no modelo de direcionamento de recursos.
O banco também informou ganho de 2,8 pontos percentuais de market share entre dezembro de 2025 e abril de 2026. A taxa média no crédito imobiliário caiu de cerca de 13% ao ano para cerca de 12% ao ano em 2026, movimento associado à liberação de parte do compulsório e à competição entre bancos durante a transição regulatória.
Nova regra amplia exposição dos bancos ao risco de juros
O novo modelo de crédito imobiliário prevê uma transição para que 100% da poupança seja direcionada ao setor ao longo de dez anos. A mudança envolve liberação gradual de recursos hoje recolhidos como compulsório e da parcela livre da poupança, com conclusão prevista para janeiro de 2036.
No modelo anunciado pelo governo em outubro de 2025, o valor máximo do imóvel financiado no Sistema Financeiro da Habitação passou de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões. A regra também estabelece que 80% dos financiamentos habitacionais deverão seguir as condições do SFH, com juros limitados a 12% ao ano.
O desafio, daqui em diante, será conciliar demanda por imóveis, competição bancária e custo de captação. Enquanto a poupança perder atratividade diante da renda fixa, o mercado imobiliário brasileiro terá de operar com funding mais disputado, maior peso de instrumentos alternativos e atenção redobrada ao risco de juros.



























