No Brasil, metade das vendas de imóveis escapa do corretor
Pesquisa Offerwise/Loft mostra alta satisfação com imobiliárias, mas intermediação integral ainda fica abaixo de metade das transações.







Uma pesquisa da Offerwise encomendada pela Loft expôs um paradoxo no mercado imobiliário no Brasil: embora 81% dos proprietários, compradores e inquilinos que usaram imobiliária nos 12 meses anteriores digam que gostariam de contar novamente com o serviço no futuro, só 49% das transações de compra e venda e 43% das locações foram feitas integralmente por imobiliárias ou corretores. O levantamento ouviu 2.500 brasileiros em março de 2026 e foi publicado pelo portal Portas em 1º de junho de 2026, com atualização em 2 de junho.
Na prática, os dados indicam que 51% das compras e vendas e 57% das locações não passaram integralmente por profissionais ou empresas do setor, considerando a diferença entre 100% e os percentuais de intermediação integral informados pelo estudo. A leitura do resultado ajuda a dimensionar uma disputa central para corretores de imóveis: a satisfação existe, mas a presença na jornada ainda é parcial.
Mercado imobiliário no Brasil tem uso parcial de imobiliárias
O levantamento diferencia o uso parcial do uso integral. Entre proprietários com imóveis disponíveis para venda, 77% recorreram a imobiliárias em algum ponto da jornada. Entre proprietários que buscavam locatários, 71% usaram imobiliárias em alguma etapa. O problema, para o setor, aparece quando a análise sai da contratação pontual e observa quem conduziu a transação inteira.
Na venda de imóveis, as etapas mais conduzidas sem imobiliária ou corretor nos 12 meses anteriores foram visitação, com 50%; negociação, com 48%; divulgação, com 46%; contato inicial com interessados, com 35%; revisão de documentação, com 33%; elaboração de contrato, com 30%; e seleção do comprador, com 25%.
Na locação, o padrão é semelhante. As etapas mais feitas sem imobiliária ou corretor foram visitação e negociação, ambas com 47%; divulgação, com 43%; contato inicial com interessados, com 42%; elaboração do contrato, com 39%; seleção do inquilino, com 36%; e revisão de documentação, com 33%.
Imóveis à venda: visitação e negociação ficam fora do corretor
O dado da visitação é um dos mais sensíveis para a categoria. Segundo o estudo, metade dos proprietários realizou essa etapa sem profissional na venda de imóveis. O CRECI-SC, ao repercutir o levantamento em 2 de junho de 2026, também registrou que apenas 49% das operações de compra e venda e 43% das locações foram realizadas integralmente por imobiliárias ou corretores.
Para 2026, a intenção declarada por proprietários que pretendem vender mantém parte desse comportamento. Entre eles, 58% disseram que pretendem conduzir visitação sem imobiliária, 54% afirmaram que pretendem fazer divulgação sem imobiliária e 50% indicaram intenção de conduzir a negociação final sem imobiliária.
Comissão, rapidez e autonomia pesam nas decisões
As razões para não usar exclusivamente imobiliária ou corretor mostram uma combinação de custo, controle e percepção de processo. Na venda, as principais barreiras foram comissão ou taxa elevada, com 38%; maior rapidez no processo, com 36%; preferência por negociar diretamente, com 34%; maior autonomia, com 31%; processos imobiliários considerados mais burocráticos, com 27%; falta de confiança, com 17%; experiência negativa anterior, com 15%; e atendimento ruim, também com 15%.
Na locação, comissão ou taxa elevada apareceu com 37%, seguida por maior autonomia, com 35%; preferência por negociar diretamente, com 33%; maior rapidez no processo, com 27%; processos mais burocráticos, com 22%; experiência negativa anterior, com 18%; falta de confiança, com 12%; e atendimento ruim, com 8%.
Satisfação alta convive com dores no atendimento
Entre recém-contratantes, as principais frustrações relatadas foram demora no retorno, com 39%; pressão para fechar negócio, com 36%; falta de transparência sobre custos, com 34%; informações incompletas, com 31%; e dificuldade para negociar, também com 31%. Esses pontos ajudam a explicar por que parte dos clientes aprova o serviço, mas ainda prefere tocar etapas por conta própria.
Ao mesmo tempo, os benefícios valorizados por quem aprovou o serviço de imobiliárias indicam onde a intermediação mantém força. Na pesquisa, 90% citaram segurança no processo, 89% apontaram expertise na análise de documentos e 88% mencionaram facilidade para resolver burocracias e elaborar contrato.
O CRECI-SC afirmou que os dados indicam “oportunidades para ampliar a participação dos corretores de imóveis nas negociações”.
Corretores de imóveis atuam em mercado regulado e amplo
O debate ocorre em uma atividade regulada. O Decreto nº 81.871, de 29 de junho de 1978, estabelece que compete ao corretor de imóveis exercer a intermediação na compra, venda, permuta e locação de imóveis e opinar quanto à comercialização imobiliária. O COFECI informa que o Sistema COFECI-CRECI é composto pelo Conselho Federal e por 26 Conselhos Regionais, normatiza e fiscaliza a profissão com base na Lei nº 6.530, de 12 de maio de 1978, e reúne cerca de 600 mil profissionais e 70 mil empresas de intermediação de negócios imobiliários.
O pano de fundo é um mercado residencial vertical em ritmo elevado. A CBIC registrou 453.005 unidades lançadas em 2025, recorde da série, e 426.260 unidades vendidas no mesmo ano, alta de 5,4% sobre 2024. No quarto trimestre de 2025, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 52% dos lançamentos, com 69.188 unidades, e por 49% das vendas, com 53.145 unidades, dentro da amostra dos Indicadores Imobiliários Nacionais.
O paradoxo revelado pela pesquisa, portanto, não é falta de aprovação ao corretor, mas distância entre satisfação e contratação integral. Para imobiliárias e profissionais, os números apontam uma agenda objetiva: reduzir demora no retorno, pressão percebida e falta de transparência sobre custos, enquanto reforçam os atributos que os clientes já reconhecem, como segurança, análise documental e condução da burocracia.



























