China pode frear compra recorde de imóveis em Hong Kong
Continentais gastaram HK$ 43 bi no 1º trimestre, mas restrições de Pequim a fluxos financeiros podem atingir a demanda.







Compradores da China continental gastaram cerca de HK$ 43 bilhões, ou US$ 5,5 bilhões, em imóveis residenciais de Hong Kong no 1º trimestre de 2026, o maior valor já registrado para esse período, segundo a Bloomberg, republicada pelo The Straits Times. O avanço, porém, passou a conviver com um risco novo: medidas de Pequim contra canais ilegítimos de envio de dinheiro ao exterior podem dificultar a conclusão de parte das compras.
O contraste resume o momento do mercado imobiliário de Hong Kong. Após a retirada de impostos adicionais sobre imóveis residenciais em 2024, compradores continentais passaram a responder por cerca de um terço das transações residenciais, informou a Bloomberg. Agora, o aperto regulatório sobre operações financeiras transfronteiriças ameaça justamente uma demanda que ajudou a sustentar a recuperação.
Mercado imobiliário de Hong Kong atraiu compra recorde da China continental
A mudança tributária foi decisiva para reabrir o mercado a compradores de fora. O governo de Hong Kong aboliu, com efeito a partir de 28 de fevereiro de 2024, o Special Stamp Duty, o Buyer’s Stamp Duty e o New Residential Stamp Duty para transações residenciais, conforme comunicado oficial. O Inland Revenue Department também confirmou que instrumentos executados em ou após essa data para venda, compra ou transferência de imóvel residencial deixaram de estar sujeitos ao Buyer’s Stamp Duty.
Com a barreira fiscal menor, o comprador continental ganhou peso e também passou a comprar unidades de maior valor. Nos quatro primeiros meses de 2026, o valor mediano dos imóveis comprados por compradores da China continental em Hong Kong foi de HK$ 6,95 milhões, acima dos HK$ 5,43 milhões registrados para compradores locais, segundo dados da Midland citados pela Bloomberg.
Imóveis de luxo em Hong Kong concentram maior exposição
O segmento de alto padrão aparece como o ponto mais sensível. Segundo dados da Savills citados pela Bloomberg, compradores chineses continentais responderam por mais da metade das transações de pelo menos HK$ 100 milhões no 1º trimestre de 2026, ante cerca de 40% em 2025.
A própria Savills acompanhou 58 transações de imóveis de luxo em Hong Kong no 1º trimestre de 2026. Desse total, 18 foram compradas por compradores continentais verificados e 33 tinham nacionalidade desconhecida, levando a consultoria a estimar participação continental superior à metade do segmento upscale, de acordo com o South China Morning Post.
Outro levantamento reforça a dimensão do ciclo. A CBRE registrou 64 vendas de residências acima de HK$ 100 milhões em Hong Kong no 1º trimestre de 2026, alta de 156% contra 25 transações no 1º trimestre de 2025. O valor total ficou em cerca de HK$ 11,7 bilhões, ante HK$ 5,43 bilhões um ano antes, segundo a IndexBox, citando a CBRE.
Pequim mira canais financeiros transfronteiriços
O novo fator de incerteza veio de Pequim. A China Securities Regulatory Commission e outros sete órgãos chineses emitiram em 9 de maio de 2026 um plano de “retificação abrangente” de operações ilegais transfronteiriças de valores mobiliários, futuros e fundos, divulgado em 22 de maio de 2026.
O plano classificou como ilegais as atividades de instituições estrangeiras que operam negócios de valores mobiliários, futuros ou fundos dentro da China sem aprovação do regulador. Também proibiu instituições estrangeiras de oferecer, dentro da China, abertura de contas, processamento de ordens e transferência de fundos relacionados a serviços ilegais de valores mobiliários, futuros e fundos.
Na sequência, a CSRC anunciou sanções contra Tiger Brokers, Futu Securities International e Longbridge Securities por atividades ilegais transfronteiriças, com confisco de ganhos ilícitos e penalidades adicionais, segundo o State Council Information Office da China.
Regras de Hong Kong também reforçam controles
Em Hong Kong, a Securities and Futures Commission publicou em 22 de maio de 2026 uma circular exigindo controles esperados para abertura de contas e manutenção de relacionamento com clientes por corretoras licenciadas. A SFC afirmou que instituições licenciadas em Hong Kong não devem se envolver nem facilitar atividades ilegais ao prestar serviços a investidores fora de Hong Kong.
O pano de fundo é a existência de limites formais de câmbio. A State Administration of Foreign Exchange da China informa que indivíduos têm uma cota anual de US$ 50 mil para compra de câmbio. Saques em dinheiro no exterior com cartões bancários domésticos são limitados a RMB 100 mil por pessoa por ano civil.
Risco para imóveis em Hong Kong está na transferência de recursos
O risco específico para o mercado imobiliário de Hong Kong é operacional: compradores que ainda precisem transferir dinheiro da China continental para Hong Kong podem enfrentar maior dificuldade para concluir compras, segundo Jack Tong, diretor de pesquisa e consultoria da Savills, citado pela Bloomberg.
A Bloomberg também registrou que o impacto potencial tende a ser maior no segmento de alto padrão, porque esse mercado concentra transações grandes e maior dependência de canais de financiamento transfronteiriços. Em outras palavras, a mesma fatia que mais cresceu com o retorno do comprador continental é a que pode sentir primeiro o endurecimento dos controles.
Dados recentes mostram mercado aquecido, mas vulnerável
Até maio, os números gerais ainda indicavam atividade elevada. O Land Registry de Hong Kong registrou 8.537 acordos de compra e venda de unidades imobiliárias recebidos para registro em maio de 2026, queda de 1,8% ante abril e alta de 32,5% em relação a maio de 2025, informou o governo local.
O valor total desses acordos foi de HK$ 72,8 bilhões em maio de 2026, queda mensal de 0,1% e alta anual de 46,1%. Já o índice de preços de residências privadas usadas de Hong Kong subiu para 316,6 em abril de 2026, alta mensal de 0,89%, 11ª alta mensal consecutiva e maior nível em 30 meses, segundo o South China Morning Post.
O fechamento do quadro é menos sobre falta de interesse e mais sobre capacidade de execução financeira. Hong Kong segue atraindo compradores continentais, especialmente em imóveis de maior valor. Mas, se o aperto de Pequim reduzir a disponibilidade de canais para transferir recursos, a compra recorde registrada no início de 2026 pode perder força nos próximos registros do mercado imobiliário.
Fontes
- Bloomberg via The Straits Times, 2/jun/2026
- Governo de Hong Kong, 28/fev/2024
- Inland Revenue Department de Hong Kong, 2024
- South China Morning Post, abr/2026
- IndexBox citando CBRE, 27/abr/2026
- CSRC, 22/mai/2026
- State Council Information Office da China, 25/mai/2026
- SFC Hong Kong, 22/mai/2026
- SAFE, 30/dez/2017
- Governo de Hong Kong, 2/jun/2026
- South China Morning Post, mai/2026



























