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Construção no Brasil entra em pessimismo raro desde a pandemia

Sondagem da CNI mostra quatro expectativas abaixo de 50 pontos em julho de 2026, sinal de retração para atividade, insumos, emprego e novos projetos.

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A indústria da construção no Brasil entrou em uma zona rara de pessimismo em julho de 2026. A Sondagem Indústria da Construção da CNI, divulgada em 23 de julho pela Confederação Nacional da Indústria em parceria com a CBIC, mostrou que os quatro indicadores de expectativa do setor caíram simultaneamente para abaixo de 50 pontos, sinalizando retração esperada nos próximos seis meses em atividade, compras de insumos, emprego e novos empreendimentos.

Segundo a CNI, a última vez em que esse conjunto de indicadores havia passado ao mesmo tempo do campo positivo para o negativo foi em abril de 2020, no início da pandemia de Covid-19. A edição teve coleta entre 1º e 10 de julho de 2026 e ouviu 321 empresas, sendo 121 pequenas, 132 médias e 68 grandes.

Construção no Brasil: expectativas ficam abaixo de 50 pontos

Na metodologia da CNI, índices de expectativa acima de 50 pontos indicam expectativa positiva; abaixo desse patamar, indicam expectativa de queda. Quanto maior a distância em relação aos 50 pontos, maior e mais disseminada é a variação esperada pelas empresas.

A maior queda mensal ocorreu no índice de expectativa de compras de insumos e matérias-primas, que recuou 4,5 pontos, de 52,8 para 48,3 pontos. Foi a primeira vez desde setembro de 2025 que esse indicador voltou a ficar abaixo de 50 pontos.

O índice de expectativa de nível de atividade caiu 3,7 pontos, de 52,9 para 49,2 pontos, e passou a sinalizar expectativa de queda da atividade pela primeira vez desde dezembro de 2023. O indicador de número de empregados recuou 3,6 pontos, de 52,7 para 49,1 pontos, enquanto o de novos empreendimentos e serviços também caiu 3,6 pontos, de 52,5 para 48,9 pontos.

Mercado imobiliário e imóveis sentem juros, tributos e custo da mão de obra

O ambiente mais cauteloso afeta diretamente o mercado imobiliário, porque a construção de imóveis depende de crédito, custos previsíveis e decisões de investimento de médio prazo. No 2º trimestre de 2026, as taxas de juros elevadas foram apontadas como problema por 36,2% das empresas da construção. A elevada carga tributária apareceu em seguida, citada por 33,6%.

A falta ou o alto custo de trabalhador qualificado foi mencionado por 28,9% das empresas, enquanto a falta ou o alto custo da mão de obra não qualificada foi apontado por 28,6%. A demanda interna insuficiente foi citada por 17,3%.

As condições financeiras também permaneceram em terreno negativo. No 2º trimestre de 2026, o índice de satisfação com a situação financeira ficou em 45,2 pontos, o índice de facilidade de acesso ao crédito em 39,3 pontos e o índice de satisfação com o lucro operacional em 41,7 pontos, todos abaixo da linha de 50 pontos.

Insumos pressionam obras e novos empreendimentos

Mesmo com alívio na margem, o custo dos insumos continuou pressionando a construção. O índice de evolução do preço médio de insumos e matérias-primas caiu 2,2 pontos no 2º trimestre de 2026, de 68,4 para 66,2 pontos, mas permaneceu acima de 50 pontos, faixa que indica aumento de preços percebido pelas empresas.

O SINAPI do IBGE reforça esse quadro de custos. O índice variou 1,19% em junho de 2026, avanço 0,83 ponto percentual acima da taxa de maio, que havia sido de 0,36%. O custo nacional da construção por metro quadrado passou de R$ 1.953,08 em maio para R$ 1.976,37 em junho, composto por R$ 1.114,74 de materiais e R$ 861,63 de mão de obra.

No acumulado, o SINAPI registrou alta de 4,48% no ano e de 7,26% em 12 meses até junho de 2026, considerando a desoneração da folha de pagamento de empresas da construção civil.

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Confiança da construção cai na CNI, mas FGV mostra alta pontual

O ICEI da construção medido pela CNI caiu 2,1 pontos em julho de 2026, de 47,7 para 45,6 pontos, abaixo da linha de 50 pontos. O resultado indica intensificação da falta de confiança dos empresários da construção.

Dentro do ICEI, o Índice de Expectativas recuou 2,6 pontos, de 49,8 para 47,2 pontos. As expectativas sobre as próprias empresas caíram 2,8 pontos, para 51,4 pontos, enquanto as expectativas sobre a economia brasileira diminuíram 2,1 pontos, para 38,9 pontos.

O Índice de Condições Atuais também piorou, com queda de 1,1 ponto em julho, de 43,5 para 42,4 pontos. A percepção sobre as condições atuais das empresas caiu 1,4 ponto, para 45,6 pontos, e a avaliação sobre a economia brasileira recuou 0,7 ponto, para 35,9 pontos.

Em levantamento separado, a FGV IBRE informou que o Índice de Confiança da Construção subiu 0,8 ponto em julho de 2026, para 92,5 pontos, enquanto a média móvel trimestral ficou estável em 92,3 pontos. Na mesma sondagem, o Índice de Situação Atual avançou 1,5 ponto, para 92,1 pontos, e o Índice de Expectativas subiu 0,1 ponto, para 93,0 pontos.

Emprego, capacidade e investimento no setor de imóveis

No desempenho corrente da CNI, o índice de evolução do nível de atividade caiu 1,9 ponto em junho de 2026, de 49,1 para 47,2 pontos. O índice de evolução do número de empregados recuou 0,6 ponto, de 48,5 para 47,9 pontos.

A Utilização da Capacidade Operacional da indústria da construção ficou em 67% em junho de 2026, mesmo patamar de junho de 2025 e 1 ponto percentual abaixo de junho de 2024. Já a FGV mediu o Nível de Utilização da Capacidade Instalada em 76,1% em julho de 2026, com queda de 0,9 ponto percentual; o NUCI de mão de obra caiu para 77,6% e o de máquinas e equipamentos para 70,5%.

Apesar do pessimismo, o setor ainda exibe peso relevante na economia. A CBIC registrava 3.104.798 trabalhadores com carteira assinada na construção civil em maio de 2026, com saldo de 154.448 empregos gerados de janeiro a maio. O PIB da construção civil no 1º trimestre de 2026 foi informado em R$ 107,147 bilhões.

Fechamento: alerta para obras, crédito e mercado imobiliário no Brasil

O sinal central da sondagem da CNI é a virada simultânea das expectativas para o campo negativo, algo que não ocorria desde abril de 2020. Para o mercado imobiliário no Brasil, o quadro combina juros elevados, crédito difícil, carga tributária, custos de insumos e cautela sobre novos empreendimentos.

O resultado não antecipa sozinho o comportamento dos preços de imóveis, do IPTU ou da oferta de unidades, mas mostra que as empresas da construção entraram no segundo semestre de 2026 com menor disposição para ampliar atividade, compras, contratações e projetos.

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