Evergrande vira disputa de HK$ 1 bi em Hong Kong
Corte analisará em 19 de agosto pedido de liquidadores contra acordo da SFC que direciona recursos da PwC a acionistas minoritários.







A crise da China Evergrande Group ganhou um novo capítulo judicial em Hong Kong. A corte local marcou para 19 de agosto de 2026 a análise do pedido dos liquidadores da incorporadora para revisar um acordo de HK$ 1 bilhão entre a Securities and Futures Commission de Hong Kong, a SFC, e a PwC Hong Kong, segundo a Bloomberg Law.
O acerto, anunciado pela SFC em abril de 2026, prevê que a PwC Hong Kong reserve HK$ 1 bilhão para compensar acionistas minoritários independentes elegíveis da Evergrande, sem admissão de responsabilidade. Os liquidadores afirmam que os credores ficaram HK$ 1 bilhão piores com o acordo e pedem uma revisão judicial, além de uma ordem para impedir a implementação do acerto.
Disputa em Hong Kong opõe acionistas e credores da Evergrande
O centro da disputa é a destinação do dinheiro em um dos casos mais simbólicos do mercado imobiliário chinês. Para os liquidadores, a SFC não considerou os interesses da China Evergrande Group e de seus credores ao fechar o acordo com a PwC Hong Kong, segundo o South China Morning Post.
Tiffany Wong Wing-sze e Eddie Middleton, da Alvarez & Marsal, escreveram à SFC em 8 de maio de 2026 para registrar preocupações com o acordo e pedir que a comissão não avançasse na implementação. A SFC rejeitou o pedido dias depois, conforme mandado citado pelo jornal.
Em documento visto pela Bloomberg News e relatado pelo Insurance Journal, os liquidadores também argumentaram que a SFC não tinha autoridade estatutária para resolver, da forma adotada, uma alegação de má conduta de mercado contra uma entidade não regulada como a PwC Hong Kong. Eles pediram que as decisões da comissão fossem declaradas “unlawful, void and/or invalid”.
PwC, imóveis e auditorias no centro do caso Evergrande
A SFC afirmou que o acordo com a PwC Hong Kong resolveria o caso “fully and finally” e que não tomaria novas medidas contra a firma se os termos fossem cumpridos. O regulador apontou que as demonstrações financeiras e anúncios de resultados da Evergrande para 2019 e 2020 continham informações materialmente falsas ou enganosas, especialmente por reconhecimento prematuro de receita de vendas de imóveis antes da conclusão e entrega aos compradores.
Segundo dados citados pela CaproAsia, a SFC concluiu que a receita auditada da Evergrande foi superestimada em RMB 213,9 bilhões, ou 44,79%, em 2019, e em RMB 350,2 bilhões, ou 69,03%, em 2020. O regulador também afirmou que lucros auditados de RMB 33,5 bilhões em 2019 e RMB 31,4 bilhões em 2020 deveriam ter sido perdas de RMB 7,12 bilhões e RMB 19,9 bilhões, respectivamente.
No mesmo dia do anúncio da SFC, o Accounting and Financial Reporting Council de Hong Kong impôs à PwC uma multa de HK$ 300 milhões, uma limitação de seis meses para novos trabalhos de auditoria de entidades de interesse público e multas de HK$ 5 milhões cada a Cheung Siu Cheong e Chow Sai Keung, ex-responsáveis registrados. A AFRC disse que a PwC atuou como reporting accountant no IPO da Evergrande em 2009 e depois como auditora do grupo desde a listagem até o início de 2023.
Mercado imobiliário chinês ainda sente o colapso da incorporadora
A disputa sobre o acordo de HK$ 1 bilhão ocorre em paralelo a uma ação maior dos liquidadores contra a PwC. Em 18 de maio de 2026, uma corte de Hong Kong ouviu que eles buscam 57 bilhões de yuans, ou US$ 8,4 bilhões, da PwC por seu trabalho de auditoria, em processo contra PwC International, PwC Hong Kong e a entidade continental chinesa da PwC, segundo a Associated Press.
A ação foi lançada após a liquidação judicial da Evergrande e alega “negligence” no trabalho anterior da PwC para a incorporadora, com o objetivo de recuperar valores para credores. De acordo com a The Business Times, o processo original contra a PwC foi protocolado em março de 2024 e trata de relatórios de auditoria sobre as demonstrações financeiras da Evergrande de 2017 e do primeiro semestre de 2018.
A Evergrande informou à HKEX que sua liquidação foi ordenada pelo High Court de Hong Kong em 29 de janeiro de 2024, quando Edward Simon Middleton e Wing Sze Tiffany Wong foram nomeados liquidadores conjuntos e solidários. O site da liquidação da companhia também registra a nomeação dos dois diretores da Alvarez & Marsal Asia Limited.
A incorporadora entrou em default em 2021 e acumulava mais de US$ 300 bilhões em passivos, tornando-se a incorporadora mais endividada do mundo segundo a AP. Reguladores chineses também multaram a PwC em 441 milhões de yuans em setembro de 2024 por auditorias relacionadas à Evergrande.
O que está em jogo para credores, acionistas e imóveis
A audiência de 19 de agosto de 2026 deve testar até onde vai a margem de atuação da SFC em acordos ligados a informações financeiras de companhias listadas e como essa atuação se concilia com uma liquidação em curso. Para acionistas minoritários, o acordo representa uma via direta de compensação. Para os liquidadores, ele desloca recursos que deveriam integrar a recuperação dos credores.
O embate mantém Hong Kong no centro jurídico da crise da Evergrande e mostra como o colapso de uma gigante dos imóveis continua produzindo disputas sobre auditoria, regulação de mercado e prioridade de pagamentos. O desfecho da revisão judicial poderá definir se o acordo de HK$ 1 bilhão avança ou se a distribuição dos recursos será reavaliada à luz da liquidação.
Fontes
- Bloomberg Law, 23/06/2026
- Securities and Futures Commission, 23/04/2026
- South China Morning Post, 15/06/2026
- Insurance Journal/Bloomberg, 17/06/2026
- CaproAsia, 25/04/2026
- Accounting and Financial Reporting Council, 23/04/2026
- Associated Press, 18/05/2026
- The Business Times/Bloomberg, 18/05/2026
- China Evergrande Group in Liquidation, 2024
- HKEXnews, 29/01/2024



























