Imóveis caem 16,2% e travam demanda doméstica na China
Crise no mercado imobiliário pesa sobre investimento, varejo e confiança, enquanto exportações ganham papel central na economia chinesa.







O mercado imobiliário da China voltou a aparecer como o principal freio da segunda maior economia do mundo. Entre janeiro e maio de 2026, o investimento em desenvolvimento imobiliário somou 30.356 bilhões de yuans e caiu 16,2% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o National Bureau of Statistics of China. Dentro desse total, o investimento residencial foi de 23.426 bilhões de yuans, com queda de 15,6%.
O dado, divulgado em 16 de junho de 2026, mostra piora em relação ao acumulado de janeiro a abril, quando o investimento imobiliário havia somado 23.969 bilhões de yuans e recuado 13,7% na comparação anual. A deterioração veio junto de uma queda de 4,1% no investimento fixo total, excluindo famílias rurais, que somou 178.512 bilhões de yuans nos cinco primeiros meses do ano.
Mercado imobiliário da China aprofunda queda nos imóveis
A fraqueza aparece em quase todas as etapas do setor. A área em construção por incorporadoras chinesas caiu 12,3% entre janeiro e maio, para 5.487,75 milhões de m². As novas obras iniciadas recuaram 22,6%, para 179,29 milhões de m², enquanto as obras concluídas caíram 23,4%, para 140,87 milhões de m².
As vendas de imóveis novos também seguiram em contração. Por área, caíram 10,8% no acumulado de janeiro a maio, para 313,20 milhões de m². Em valor, recuaram 13,5%, para 29.366 bilhões de yuans. No segmento residencial, a área vendida caiu 12,1% e o valor vendido diminuiu 14,1%.
O aperto financeiro das incorporadoras reforça o quadro. Os recursos recebidos pelo setor caíram 19,0% no período, para 32.756 bilhões de yuans. Empréstimos domésticos recuaram 28,7%, recursos próprios caíram 13,0%, depósitos e pré-pagamentos diminuíram 16,1% e hipotecas individuais tiveram queda de 28,0%.
Preços de moradias novas seguem pressionados na China
Os preços reforçam a leitura de um mercado imobiliário ainda sem recuperação consistente. O Financial Times reportou que os preços médios de moradias novas nas 70 principais cidades chinesas caíram 0,2% em maio de 2026 ante abril.
Nos dados do National Bureau of Statistics, as cidades de primeira linha tiveram alta mensal de 0,2% nos preços de moradias novas em maio. Xangai, Guangzhou e Shenzhen subiram 0,2%, 0,2% e 0,4%, respectivamente, enquanto Pequim caiu 0,2%. Já as cidades de segunda linha registraram queda de 0,1%, e as de terceira linha recuaram 0,4%. Entre as 70 cidades grandes e médias, 16 tiveram alta mensal nos preços de moradias novas, duas a mais que em abril.
Investimento fixo e consumo mostram demanda doméstica fraca
A crise dos imóveis se espalha para o quadro macroeconômico. Sem o desenvolvimento imobiliário, o investimento fixo chinês caiu 1,2% entre janeiro e maio. Por campo, a infraestrutura cresceu 0,6%, a manufatura caiu 0,4% e o desenvolvimento imobiliário recuou 16,2%.
O investimento privado caiu 7,1% no período. O investimento no setor terciário diminuiu 6,8%, e o investimento no Nordeste recuou 17,5%. Esses números ajudam a explicar por que o setor imobiliário segue drenando a atividade mesmo com sinais pontuais de resiliência em outros segmentos.
No consumo, maio trouxe outro alerta. As vendas no varejo de bens de consumo somaram 4.109 bilhões de yuans e caíram 0,6% em relação ao mesmo mês de 2025. O Financial Times informou que foi a primeira contração anual mensal desde dezembro de 2022. No acumulado de janeiro a maio, porém, as vendas no varejo somaram 20.603,1 bilhões de yuans e cresceram 1,4%.
Varejo urbano cai, enquanto áreas rurais avançam
O recuo foi concentrado nas cidades. Em maio, as vendas urbanas no varejo caíram 0,9%, para 3.574,1 bilhões de yuans, enquanto as vendas rurais subiram 1,5%, para 534,9 bilhões de yuans. Por tipo de consumo, as vendas de bens caíram 0,7% e as receitas de alimentação cresceram 0,6%.
O indicador chinês de varejo de bens e serviços de consumo cresceu 2,8% entre janeiro e maio de 2026. Dentro dele, serviços avançaram 5,4% e bens cresceram 1,2%, sinalizando uma economia com desempenho desigual entre categorias.
Exportações sustentam a China enquanto imóveis pesam
O contraste mais forte está no setor externo. Em maio de 2026, o comércio exterior de bens da China somou 4.451,6 bilhões de yuans e cresceu 16,9% na comparação anual. As exportações em yuans alcançaram 2.587,8 bilhões de yuans, alta de 13,8%, enquanto as importações somaram 1.863,8 bilhões de yuans, avanço de 21,5%.
Em dólares, as exportações chinesas de maio somaram US$ 376,78 bilhões e cresceram 19,4% ano a ano, segundo a General Administration of Customs of China. As importações chegaram a US$ 271,35 bilhões, alta de 27,4%, e o superávit comercial mensal foi de US$ 105,43 bilhões.
Entre janeiro e maio de 2026, o comércio exterior chinês somou 20.682,7 bilhões de yuans e cresceu 15,3%. As exportações totalizaram 11.913,7 bilhões de yuans, com alta de 11,8%, e as importações chegaram a 8.769,1 bilhões de yuans, avanço de 20,5%.
Crise imobiliária da China vira risco macro global
O National Bureau of Statistics afirmou em 16 de junho de 2026 que a economia chinesa ainda enfrenta uma “contradição proeminente” entre oferta forte e demanda doméstica fraca, além de pressão operacional sobre parte das empresas. A produção industrial cresceu 4,5% em maio, 0,4 ponto percentual acima de abril; a manufatura avançou 4,4%, e a manufatura de alta tecnologia cresceu 15,1%.
O Fundo Monetário Internacional projetou crescimento de 4,5% para o PIB chinês em 2026 e apontou como principal risco doméstico uma contração imobiliária mais profunda que, combinada a dívidas elevadas, poderia ampliar a fraqueza da demanda doméstica, entrincheirar pressões deflacionárias e manter a dependência de exportações.
A crise tem raízes em incorporadoras que simbolizaram o excesso de dívida no setor. A Evergrande entrou em default em 2021 e foi ordenada à liquidação por um tribunal de Hong Kong em 29 de janeiro de 2024, com cerca de US$ 300 bilhões em passivos. A Country Garden foi declarada em default em um bônus em dólar pela primeira vez em outubro de 2023, após não honrar pagamento dentro do prazo de carência.
O desafio de Pequim é compatibilizar a meta oficial de crescimento do PIB de 4,5% a 5% em 2026 com um mercado de imóveis ainda em retração e famílias cautelosas. O FMI recomendou que a transição para um modelo liderado por consumo seja prioridade central da política econômica chinesa e afirmou que apoio ao setor imobiliário e reforço da proteção social ajudariam a reconstruir a confiança do consumidor.
Fontes
- National Bureau of Statistics of China - Real Estate Development and Sales, 16/06/2026
- National Bureau of Statistics of China - Real Estate Development and Sales, 18/05/2026
- National Bureau of Statistics of China - Fixed Asset Investment, 16/06/2026
- National Bureau of Statistics of China - National Economy, 16/06/2026
- National Bureau of Statistics of China - Retail Sales, 16/06/2026
- National Bureau of Statistics of China - Residential Sales Prices, 16/06/2026
- General Administration of Customs of China, 09/06/2026
- Financial Times, 16/06/2026
- IMF - China Article IV Consultation, 2026
- Government Work Report 2026 - NPC Observer
- Associated Press, 29/01/2024
- South China Morning Post, 25/10/2023



























