Mansão no Morumbi expõe queda de imóvel de luxo em São Paulo
Casa ligada a Edemar Cid Ferreira foi de símbolo de luxo a ruína judicial, com leilão, deterioração e impasse ambiental no Morumbi.







A mansão associada a Edemar Cid Ferreira, fundador e antigo controlador do Banco Santos, no Morumbi, zona oeste de São Paulo, resume uma trajetória rara no mercado imobiliário: construída entre 2000 e 2004, avaliada em cifras superiores a R$ 110 milhões em uma das fontes consultadas, deteriorada após anos sem moradores e arrematada em 2020 em leilão judicial. Há divergência entre reportagens sobre o preço final: o Jornal do Brasil informou cerca de R$ 20 milhões, enquanto Estadão Conteúdo, republicado pelo Seu Dinheiro, registrou R$ 27,5 milhões.
O imóvel voltou ao noticiário também por seu destino urbano. Em 2023, o R7 informou que a mansão seria demolida para dar lugar a um conjunto de prédios residenciais de alto padrão em um terreno de 12 mil m². No mesmo mês, o Metrópoles registrou que a demolição estava travada por uma “minifloresta” com cerca de 280 árvores, exigindo autorização ambiental municipal.
Mansão no Morumbi reunia luxo, arte e estrutura incomum
Segundo o Jornal do Brasil, a casa foi construída entre 2000 e 2004 e reunia três elevadores pneumáticos, piscinas coberta e descoberta, 34 banheiros, adega para 5 mil garrafas, duas galerias de arte e obras atribuídas a Pablo Picasso, Andy Warhol e Tarsila do Amaral nas paredes.
Outra descrição, publicada pelo Estadão Imóveis em 2021, registrou área total de 8.000 m², cinco andares, sala fitness, quadras de tênis e squash, adega para 5 mil garrafas e heliponto homologado. A mesma publicação afirmou que a casa tinha arquitetura de Ruy Ohtake, paisagismo de Roberto Burle Marx e esculturas de Oscar Niemeyer, em anúncio imobiliário veiculado após o leilão judicial.
Documentos judiciais consultados no e-SAJ indicam que as sociedades Atalanta e Hyles eram proprietárias do imóvel da Rua Gália, 120, residência de Edemar Cid Ferreira. O processo registra ainda que a Atalanta foi constituída para construção e administração do imóvel com recursos oriundos do exterior.
Banco Santos, liquidação e disputa sobre bens em São Paulo
O pano de fundo da mansão é a crise do Banco Santos. O Banco Central decretou intervenção na instituição em 12 de novembro de 2004, citando comprometimento econômico-financeiro, deterioração de liquidez, infração a normas bancárias e descumprimento de determinações do BC. Em 4 de maio de 2005, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Santos S.A.
Em reportagem de 2024, a Folha de S.Paulo registrou que o banco sofreu intervenção após rombo de R$ 2,1 bilhões, em valores da época, e que era o 21º maior banco do país em 2004. A Agência Brasil informou, em 2005, que o interventor encontrou dívidas de R$ 2,980 bilhões, ativos de R$ 756 milhões e passivo de R$ 2,236 bilhões.
O UOL informou que Edemar Cid Ferreira foi despejado da casa em 20 de janeiro de 2011 e que a dívida aos credores do Banco Santos ultrapassava R$ 2,7 bilhões naquela data. Em fevereiro de 2011, o Tribunal de Justiça de São Paulo informou que a 1ª Vara Cível de Pinheiros determinou que Edemar, esposa e filhos voltassem à mansão para discriminar bens familiares e pessoais entre os bens arrecadados pela massa falida.
De imóvel de luxo a ruína no mercado imobiliário
Em 2017, a Veja descreveu a mansão como fechada, deteriorada e sem a maioria das obras de arte que a tornavam uma espécie de museu particular. A reportagem registrou pisos de madeira podres, lâmpadas caídas e portas com problemas de abertura e fechamento.
A mesma reportagem informou que, em seis anos sem moradores, a residência custou R$ 8 milhões à massa falida e que a conta de luz chegava a R$ 100 mil por mês por causa da automação de persianas e do sistema de ar-condicionado. Naquele ano, o lance mínimo do leilão online marcado pela Superbid era R$ 78 milhões, e a casa havia sido avaliada em R$ 120 milhões quatro anos antes.
O Jornal do Brasil publicou que, após a falência do banco, a mansão entrou no espólio judicial, foi saqueada ao longo dos anos, teve a família removida em 2011, passou por quatro tentativas de leilão e foi arrematada em 2020 por cerca de R$ 20 milhões após avaliação inicial superior a R$ 110 milhões.
Leilão, revenda e demolição travada por área verde
Em 18 de fevereiro de 2020, segundo reportagem do Estadão Conteúdo republicada pelo Seu Dinheiro, a mansão foi arrematada por R$ 27,5 milhões após 16 lances em evento da D1 Lance Leilões iniciado em R$ 10 milhões. A reportagem afirmou que o valor representava cerca de um terço da última avaliação pericial de R$ 78 milhões.
Em 2021, após o leilão, o imóvel voltou ao mercado anunciado por R$ 70 milhões, conforme o Estadão Imóveis. Dois anos depois, em maio de 2023, o R7 informou que a mansão seria demolida e que no terreno do Morumbi seria erguido um conjunto de prédios residenciais de alto padrão.
O Metrópoles informou em 23 de maio de 2023 que a demolição estava travada por uma área arborizada com cerca de 280 árvores. Segundo a reportagem, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento disse que o pedido de demolição foi indeferido porque a área era considerada patrimônio ambiental e exigia autorização da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente.
O que o caso mostra sobre imóveis de alto padrão
A história da mansão do Morumbi combina três dimensões documentadas: a exuberância arquitetônica e artística do imóvel, a disputa judicial decorrente da liquidação do Banco Santos e a dificuldade de dar novo destino a uma propriedade de grande porte em São Paulo. No mercado imobiliário, o caso chama atenção menos por uma valorização linear e mais pelo contraste entre avaliações, custos de manutenção, deterioração física, leilão e tentativa posterior de reaproveitamento do terreno.
Fontes
- Folha de S.Paulo, 13/01/2024
- Banco Central, Ato do Presidente nº 1.082, 12/11/2004
- Banco Central, Ato do Presidente nº 1.095, 04/05/2005
- Agência Brasil/EBC, 04/05/2005
- Jornal do Brasil, consultado em 24/05/2026
- Estadão Imóveis, 15/07/2021
- TJSP/e-SAJ, processo 2SZX5RI7S0072
- UOL Notícias, 27/01/2011
- TJSP, 23/02/2011
- Veja, 24/10/2017
- Seu Dinheiro/Estadão Conteúdo, 18/02/2020
- R7, 22/05/2023
- Metrópoles, 23/05/2023



























