Justiça barra demolição de presídio vendido por R$ 23 mi em SP
Antigo Presídio do Hipódromo, no Brás, virou disputa sobre mercado imobiliário, patrimônio histórico e memória da ditadura em São Paulo.







A Justiça de São Paulo concedeu, em 26 de maio de 2026, uma liminar que proíbe a demolição do antigo Presídio do Hipódromo, no Brás, sob multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento. O imóvel, localizado na Rua do Hipódromo, nº 600, foi vendido por R$ 23 milhões, valor questionado em ação popular por suspeita de estar abaixo do mercado.
A decisão é da juíza Maricy Maraldi, da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, segundo a Folha de S.Paulo. A medida ocorreu depois que o mandato da vereadora Amanda Paschoal, do PSOL, identificou um pedido de alvará de demolição protocolado em 18 de maio de 2026 em nome de uma profissional autônoma.
Presídio do Hipódromo no Brás entra no centro do mercado imobiliário de São Paulo
A ação popular foi movida por Amanda Paschoal ao lado de Ivan Seixas, Maria Amélia de Almeida Teles, Maurice Politi e Janaína de Almeida Teles. Além de impedir a demolição, a liminar determinou que a Prefeitura de São Paulo informe, em até cinco dias úteis, a incorporadora envolvida na negociação do imóvel.
A mesma decisão acionou o Gepat, grupo do Ministério Público paulista, para apurar possível improbidade administrativa na venda. Também foi oficiado o Iphan, com o objetivo de acelerar o processo de tombamento federal do complexo.
O caso desloca uma transação imobiliária para uma disputa pública mais ampla. De um lado, estão a alienação de um ativo em área valorizada da capital paulista e a expectativa de uso econômico do terreno. De outro, a tentativa de preservar um edifício associado à repressão política durante a ditadura.
Venda por R$ 23 milhões é questionada em ação popular
Segundo a Folha, a ação popular afirma que o imóvel foi transferido ao FIISP, Fundo de Investimento Imobiliário do Estado de São Paulo, e vendido por R$ 23 milhões. O valor é apontado na ação como suspeito de estar abaixo do mercado.
As demonstrações financeiras de 2024 do FIISP registram o imóvel “Rua do Hipódromo, 600 – Brás São Paulo/SP”, matrícula nº 125.042, no ID 338, com valor de R$ 11,146 milhões e custos incorporados de R$ 575 mil, conforme documento do fundo administrado pela Singulare.
A Agência Pública informou que o terreno tem 4,4 mil m² e foi integralizado ao FIISP no fim de outubro de 2024 pelo valor de R$ 11,1 milhões. A reportagem também afirmou que a Singulare Corretora, administradora fiduciária do FIISP, tornou-se proprietária do imóvel em 2 de junho de 2025, conforme escritura acessada pela agência.
Avaliação de imóveis no Brás reforça debate sobre preço
A Agência Pública citou avaliação da Binswanger segundo a qual o metro quadrado na região ficava entre R$ 5,8 mil e R$ 6,4 mil. Com essa referência, o valor estimado de mercado para o imóvel ficaria entre R$ 25,2 milhões e R$ 27,8 milhões.
Esses números explicam por que a venda passou a ser tratada não apenas como uma operação patrimonial, mas como um caso sensível para o mercado imobiliário de São Paulo. A discussão envolve preço, destinação de imóveis públicos, transparência e preservação de patrimônio histórico.
Tombamento do imóvel em São Paulo também tramita na Câmara
Na Câmara Municipal de São Paulo, o Projeto de Lei 01-01295/2025, de autoria do vereador Professor Toninho Vespoli, do PSOL, propõe o tombamento do edifício do antigo Presídio do Hipódromo para preservação histórica, arquitetônica e cultural. O texto prevê que o Conpresp adote providências para efetivar o tombamento municipal.
A justificativa do projeto afirma que o Presídio do Hipódromo foi construído entre o fim da década de 1930 e o início da década de 1940. O documento também diz que o local passou a receber presos políticos no fim dos anos 1960 e que, no início dos anos 1970, havia se transformado em aparato da repressão política.
Entre os presos citados na justificativa estão José Genoíno, Nilmário Miranda, Ivan Seixas, Amelinha Teles, Idibal Pivetta e Rita Lee. O registro desses nomes é um dos elementos usados no debate público sobre a preservação do imóvel como espaço de memória.
De presídio da ditadura a ativo imobiliário em disputa
Em 26 de fevereiro de 1986, o Decreto Estadual nº 24.789 transferiu o Presídio do Hipódromo da Secretaria da Segurança Pública para a Secretaria da Justiça e alterou sua denominação para Cadeia Pública do Hipódromo. Segundo a justificativa do PL 01-01295/2025, o local foi fechado definitivamente em 1995 e depois serviu como unidade da Fundação Casa até o fechamento final em 2021.
A Agência Pública informou que a Fundação Casa declarou que o imóvel estava desocupado desde fevereiro de 2021 e permaneceu sob responsabilidade da instituição até sua alienação. Agora, com a liminar, a demolição fica barrada enquanto a Justiça cobra informações da Prefeitura, aciona órgãos de controle e pressiona pelo avanço do tombamento federal.
O desfecho ainda depende dos próximos atos judiciais e administrativos. Mas a decisão de 26 de maio já transformou o antigo presídio, antes tratado como ativo imobiliário, em um teste sobre como São Paulo lida com imóveis públicos, memória da ditadura e preservação em áreas disputadas pelo mercado imobiliário.



























