nr1.lat Blog
Investimento Mato Grosso

Fazendas com até 40% de desconto atraem fundos em Mato Grosso

Crise no agro leva terras produtivas ao mercado; Buri mira áreas de 1 mil a 3 mil hectares e já analisa cerca de 95 mil hectares.

Ouça esta matéria Leitura automática · voz natural
Velocidade
Ver comentários dos leitores

Fazendas produtivas em Mato Grosso entraram no radar de fundos de investimento em meio ao aperto financeiro do agronegócio. Em 24 de agosto de 2026, o Brazil Journal informou que a Buri, gestora criada por Olivier Colas e Eça Correia, estruturou um fundo para comprar propriedades agrícolas em baixa liquidez e revendê-las quando o ciclo do agro melhorar. Segundo a reportagem, os gestores afirmaram encontrar terras com descontos de 30% a 40% sobre valores de 2022, principalmente em operações ligadas à execução de garantias de produtores endividados.

O movimento ocorre em um momento de pressão sobre caixa, crédito e rentabilidade no campo. O agronegócio brasileiro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior volume da série histórica da Serasa Experian iniciada em 2021. Mato Grosso liderou os pedidos no setor, com 332 registros no ano.

Mercado imobiliário rural em Mato Grosso muda com a crise do agro

O fundo da Buri havia recebido mais de 80 fazendas ofertadas e tinha cerca de 95 mil hectares em análise ou negociação na data da reportagem do Brazil Journal. O foco inicial é Mato Grosso, com preferência por áreas de 1 mil a 3 mil hectares, consideradas pela gestora mais fáceis de revender.

A tese combina compra de imóveis rurais em situação de baixa liquidez com a expectativa de ganho em um ciclo futuro de recuperação. A Buri reunia R$ 180 milhões entre terras aportadas e recursos de investidores, tinha capital autorizado de R$ 5 bilhões e, segundo Eça Correia ao Brazil Journal, poderia ter tamanho inicial em torno de R$ 500 milhões.

A seleção das propriedades analisadas é feita pela NMPO, consultoria de avaliação de terras agrícolas criada por Stephen Pout e Juliano Vorraber, ex-executivos da Macquarie. O fundo começou com o aporte de uma fazenda da Agrícola São Luiz, da família Martelli, produtora de grãos de Mato Grosso. A ASL será arrendatária das terras adquiridas e operará as áreas enquanto a janela de venda estiver fechada.

Imóveis rurais, crédito e recuperação judicial no agro

Os dados da Serasa Experian ajudam a dimensionar a deterioração financeira que sustenta a oferta de terras. Os pedidos de recuperação judicial do agro cresceram 56,4% em 2025 ante 2024, quando foram 1.272 solicitações. Depois de Mato Grosso, os maiores volumes vieram de Goiás, com 296 pedidos; Paraná, com 248; Mato Grosso do Sul, com 216; e Minas Gerais, com 196.

Entre os perfis de devedores, produtores rurais pessoa física responderam por 853 pedidos de recuperação judicial no agro em 2025, alta de 50,7% sobre 2024. Produtores rurais pessoa jurídica registraram 753 pedidos, alta de 84,1%. Empresas da cadeia do agronegócio somaram 384 pedidos, crescimento de 29,3%.

O ambiente de crédito também ficou mais restritivo. Reportagem da Folha de S.Paulo informou que a inadimplência do crédito rural chegou a 7,3% em janeiro de 2026, maior nível da série do Banco Central iniciada em 2011, enquanto o crédito rural livre sem subsídio atingiu 13,5% em doze meses. A mesma reportagem apontou que a 051 Capital analisava, em agosto de 2026, a reestruturação de R$ 1,5 bilhão em dívidas de produtores de soja.

nr1.lat — encontre o proprietário e os débitos de qualquer imóvel cadastrado

Soja pressiona renda, mas Mato Grosso mantém peso produtivo

A queda de margem na soja reforça o pano de fundo para a venda de propriedades. A CNA Brasil estimou que a margem bruta da soja para produtor com terra própria caiu 47,6%, de R$ 2.325,50 por hectare na safra 2024/25 para R$ 1.219,60 por hectare na safra 2025/26.

Em Mato Grosso, o custo total da soja na safra 2025/26 foi estimado em R$ 7.657,89 por hectare, alta de 7,69% ante a safra anterior, com fertilizantes subindo 9,23% e defensivos avançando 4,33%. Ao mesmo tempo, o Imea estimou produção recorde de soja no estado na safra 2025/26, com 51,56 milhões de toneladas, área plantada de 13,013 milhões de hectares e produtividade média de 66,03 sacas por hectare.

No plano nacional, a Conab estimou a safra brasileira de grãos 2025/26 em 360,8 milhões de toneladas, alta de 2,4%, ou 8,5 milhões de toneladas, sobre 2024/25. Dados da Conab citados pelo ES Brasil apontaram a produção brasileira de soja em 180,46 milhões de toneladas, avanço de 5,2%, com Mato Grosso como maior produtor nacional, com 51,6 milhões de toneladas.

Referência de preço para terras em Mato Grosso

Operações recentes ajudam a mostrar que o mercado de terras segue ativo mesmo sob estresse financeiro. Em julho de 2026, a Cosan fechou acordo envolvendo o Bloco Mato Grosso da Radar, com aproximadamente 41,2 mil hectares físicos e cerca de 28 mil hectares agricultáveis, segundo o Money Times.

Nessa operação, a SLC Agrícola ficou com 8,9 mil hectares agricultáveis por R$ 669,04 milhões, incluindo infraestrutura como silos e algodoeira. Descontada infraestrutura estimada em R$ 29,7 milhões, a terra nua agricultável adquirida foi avaliada em R$ 639,3 milhões, equivalente a cerca de R$ 72 mil por hectare agricultável. O pagamento estava previsto em duas etapas: R$ 255,15 milhões na assinatura do acordo e R$ 413,89 milhões até 30 de outubro de 2026.

Investimento em fazendas exige leitura de ciclo

A Buri informa atuar nas teses de Terras Agrícolas, Crédito, Special Situations (NPL Agro) e Logística & Infraestrutura. A gestora também informa que Olivier Colas tem mais de 30 anos de experiência e atuou em empresas como Saint-Gobain e Shell, enquanto Eça Correia tem experiência em M&A e reestruturação, com passagem pela PwC.

Para o mercado imobiliário rural de Mato Grosso, a combinação de endividamento, queda de margem e execução de garantias abriu uma janela incomum: ativos produtivos sendo ofertados com descontos relevantes em relação a 2022. Para investidores, o ponto central é avaliar se a compra de imóveis agrícolas em baixa liquidez será compensada por uma recuperação futura do ciclo do agro. Para produtores, a mesma dinâmica expõe o custo financeiro de atravessar safras com margens comprimidas e crédito mais caro, mesmo em um estado que segue líder nacional na soja.

#Mato Grosso#fazendas com desconto#imóveis rurais#mercado imobiliário#investimento em terras#agronegócio#recuperação judicial agro

Fontes

Compartilhar Facebook X Telegram

Comentários

Carregando comentários…

Entre para participar

Cadastre-se para comentar, responder e curtir.